Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

O jogo do Monopólio em Portugal começou como escola de virtudes; no tempo em que não havia capitalismo lembrava-nos de como a vida podia ser melhor, e mais movimentada. Havia Sorte e Azar; uma ligação ténue e por isso correcta entre o que se merecia e o que nos acontecia. Aos jogadores sem escrúpulos não era raro saltitar entre a casa “Partida” e o “Estacionamento Livre”; e aos observantes era observado: “Vá para a Cadeia;” ou anunciado: “Levou um tiro de um amigo.” Como prevenira o Poeta, a sorte dos dados nunca serve para abolir o azar.

O Monopólio fez perceber a gerações inteiras que há uma contiguidade entre cores e coisas. As crianças não esqueceram a diferença entre o azul da Almirante Reis e o azul da Rua Augusta; os daltónicos nunca confundiram a Rua de Santa Catarina com o Campo Grande; a Rua Garrett tornou-se amarela. O Monopólio ensinou geografia segundo o melhor princípio: que a semelhança entre sítios é determinada por aquilo que nos pode acontecer nesses sítios. É a geografia onde a Nigéria fica sempre ao lado do Algarve.

Junto da Rua Ferreira Borges (Coimbra), e depois da repartição do Imposto Predial (sem importância), e do Cinema S. João (um mal menor), estava para todos os efeitos a Avenida da Boavista (salvo erro, Porto); que por sua vez confinava com a Avenida da República (perigosa, Lisboa). Gerações inteiras confundiram com razão a Praça da Liberdade (Porto) e a Avenida da Liberdade (Lisboa), como ainda hoje se faz com Lagos e Lagos. Eram as diferenças que não faziam diferença.

Os grandes jogadores do passado negociavam imobiliário à velocidade da luz. Venderam hotéis a um banco amável à medida que os outros passavam por eles, para que as mesmas pessoas caíssem nos hotéis que entretanto se comprassem. O conceito ‘cair num hotel’ é técnico: não tem quase aplicação fora do Monopólio. Não indica a possibilidade abstracta ou o facto de alguém tropeçar; sugere o horror da estadia. Aos proprietários faz antecipar o deleite de pagamentos em espécie, e extorsões: em bairros, e em empresas. Um dos maiores jogadores de Monopólio de todos os tempos dizia com ufania ominosa durante os jogos: “Eu sou o Massa Grossa.”

As coisas mudaram para pior, mas talvez por uma boa razão: porque as pessoas deixaram de sentir necessidade de serem lembradas de como a vida pode ser melhor. A primeira mudança foi passar o Azar a chamar-se em Portugal Caixa da Comunidade. Logo a seguir proibiu-se o banco de jogar; a consequência foi a invenção de um jogador especialmente dedicado à banca; era o aluno gordo que nas aulas de ginástica tinha opiniões e guardava os relógios. Mais recentemente a Cadeia passou a ser Prisão; a Prisão adquiriu um Espaço para Visitantes; a Avenida Todi (Setúbal) chama-se hoje Avenida das Nações Unidas.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR