1Todos aparentemente sabem como se calcula. De três formas distintas e até simples, recorda-se: a) Podem somar-se todas as rendas/recebimentos processados na economia, i.e., salários, juros, lucros distribuídos, alugueres e rendas; b) Pode somar-se tudo quanto é consumido, i.e., consumo das famílias, consumo do Estado, investimentos do Estado e exportações; c) Finalmente, pode somar-se toda a riqueza produzida, i.e., resultados dos serviços, do setor secundário ou indústria e do sector primário.  Calculando por a), por b) ou por c) o valor será idêntico. De outra forma, também compreensível, resultará da soma do consumo público com o consumo privado a que se acrescenta o investimento e as exportações. No final, retiram-se as importações.

O PIB tem sido um indicador de geração de riqueza por um país ou região. O PIB per capita é a divisão dessa riqueza produzida num ano pelo número de indivíduos de um país.

Naturalmente que um PIB per capita maior indicia mais riqueza (grosso modo) e melhores condições de vida. Porém, o PIB sofre da doença das médias e não considera os desvios face à média. A assimetria entre indivíduos e entre sectores de atividade não aparece, portanto, contemplada no PIB enquanto grandeza agregada.

2 O PIB da União Europeia (a 27) em 2019 foi de quase 14 biliões (milhão de milhões) de euros. O de Portugal rondou os 212 mil milhões de euros. O PIB de Espanha, em 2019, foi de 1,2 biliões de euros. O da Alemanha foi de 3,4 biliões de euros. O do Reino Unido, de 2,5 biliões de euros. O de Itália, de 1,7 biliões de euros. Em termos comparativos, um PIB similar ao de Portugal encontrou-se na República Checa. E, também, um PIB per capita similar ao de Portugal, na medida em que a população é muito similar e ronda também os 10 milhões, números redondos.

Os Estados Unidos tiveram um PIB de cerca de 19 biliões (milhão de milhões) de euros em 2019. O Japão teve um PIB de 4,5 biliões de euros. A China teve um PIB similar ao da União Europeia em 2019.

Temos como conclusivo que por via do PIB, os EUA são o maior gerador de riqueza, seguido, par e passo, da União Europeia e da China. Só bem mais abaixo virá o Japão.

3 Discute-se, ao momento, a quebra de geração de riqueza em Portugal, na Europa e no Mundo. As opiniões e os cenários são mais que muitos mas, em todos eles, o único PIB que não decresce é o da China.

Para o Banco Central Europeu, o decréscimo em 2020 do PIB poderá vir a ser de 5%, de 8% ou de 12% conforme a crise seja moderada, média ou severa.

Para a OCDE, a Europa cai em PIB 9,1% se houver apenas uma onda pandémica. Havendo duas ondas, o decréscimo será de 11,5%. Para o Reino Unido, o decréscimo será de 11,4% e 14%, respetivamente. Para os EUA, o decréscimo será de 7,3% e 8,3%, respetivamente. Para Portugal a previsão vai de um decréscimo de 9,4%, com um embate pandémico, a 11,3%, com uma segunda onda. Globalmente, o mundo decrescerá 6% com uma onda e 7,6% com duas.

Para o The World Bank, a crise terá um impacto negativo em PIB na ordem dos 7%. Para os mercados emergentes apenas de 2,5% de decréscimo.

Para o ING, em vários cenários, a China é o grande ganhador da crise, com crescimentos entre 0,4% e 4,5% (do cenário mais pessimista ao mais otimista). Os EUA variam o decréscimo entre 3,6% e 14,9%. A Europa decresce entre 3,2% e 16,1%. O Reino Unido decresce de 3,1% a 13%.

Para o Banco de Portugal a crise afetará, negativamente, Portugal entre os 3,7% e os 5,7% do PIB. Mais tarde o BdP viria a subir este valor para os 9,5% no cenário base. O governo tem uma previsão de quebra de 6,9% do PIB para 2020 (Ministério das Finanças).

Entre os vários opinion makers, as variações mais frequentes estão entre os 3% e os 15% negativos para Portugal.

4 Tudo isto para dizer: sabemos como se mede o PIB. Sabemos quem corre mais e gera mais riqueza. Sabemos, quando muito, quanto vai descer o PIB em cada região e país em termos de valores máximos e mínimos. Sabemos que, por entre cenários que se multiplicam, há previsões para todos os gostos e e feitios: dos otimistas aos moderados e aos pessimistas. Mais ainda, não se conseguem saber os decréscimos com segurança por setor de atividade, sendo que uns sofrem bem mais que outros. Finalmente, e para sermos claros, não sabemos as desigualdades do PIB por setores de atividade e o PIB per capita é cada vez mais falacioso.

Pergunta: para que serve o PIB? Durante muito tempo deu-se-lhe excessiva importância. Neste momento, e em crise, é apenas um indicador económico histórico, diria irrelevante para ser simpático.

O PIB não serve para prever nem a quebra nem a recuperação e incorpora demasiados estados anímicos, varia consoante o analista, flutua entre cenários, pode ser de um ou dois dígitos. E pode ficar abaixo ou acima dos 5, pode ir aos 15 e já vi quem previsse dois dígitos com o primeiro deles em 2. Isto para as quebras. Para as retomas não estamos melhor. Discutem-se curvas em L, U ou V e debatem-se cenários e mais cenários. Não há consensos.

Ou seja, se quisesse o PIB para alguma coisa, seria para alimentar um debate. Para um prós e contras atirava um número e veria quem o apoiava e quem o combatia. De resto, o PIB não é, neste momento, mais do que mero “achismo”. E “acho que” irrelevante. Se a crise nos deu um sinal de alerta – que já vinha de trás, de resto – foi também para a irrelevância do PIB e sua desadequação nestas circunstâncias.