Talvez seja impressão minha, mas parece-me que nunca se falou tanto de conservação da natureza como nos dias de hoje. Paradoxalmente, esta última nunca esteve tão em risco. A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) não deixa margem para dúvidas (nem para otimismo): mais de 47 mil espécies estão ameaçadas de extinção, o que representa 28% de todas as espécies registadas. Os números são assustadores – 41% dos anfíbios, 44% dos corais, 37% das raias e tubarões e 27% dos mamíferos estão em perigo. Estes dados não são estatísticas abstratas, mas sim um reflexo direto do impacto do Homem nos ecossistemas.

A biodiversidade enfrenta pressões humanas sem precedentes: a poluição, a sobre-exploração dos recursos naturais e as alterações nos ecossistemas comprometem cada vez mais a sobrevivência futura de inúmeras espécies. A nossa influência é tanta e tão ubíqua que estudos recentes demonstram a sua presença até nas zonas mais remotas dos oceanos, revelando como a ação humana chega a todos os cantos do planeta.

E em Portugal, em particular, a situação não é, infelizmente, diferente. Ao contrário do que a nossa primeira reação nos possa dizer, o problema não é uma ameaça vinda de fora. Vivemos num sistema fechado (chamado Terra, para os mais distraídos), onde todos contribuímos, muito ou pouco, para o caminho que fazemos juntos.

E todos aqueles indicadores são um sinal claro da necessidade de reforçar medidas de prevenção e mitigação, para, por exemplo, reduzir a emissão de poluentes para os ecossistemas, gerir de forma consciente e sustentável os recursos naturais e reduzir a pressão de ocupação das nossas áreas naturais.

Para ilustrar a gravidade desta situação, vale a pena recorrer a exemplos concretos que demonstram as consequências da inação. Por exemplo, a vaquita (Phocoena sinus), um cetáceo endémico do Golfo da Califórnia, está reduzida a menos de 10 indivíduos no mundo, sendo a sua sobrevivência uma verdadeira incógnita. A razão para tal situação? A captura acidental pela pesca de um peixe que, desde 1975, é ilegal capturar. Já no Atlântico Sul, a franciscana (Pontoporia blainvillei), um pequeno golfinho costeiro, enfrenta um destino semelhante. Embora (ainda) com números mais vantajosos do ponto de vista da gestão populacional, a pressão humana não parece estar a inverter o caminho que já conhecemos.

Estes casos extremos não estão tão distantes quanto parecem: revelam que o modelo atual de conservação, baseado numa gestão biológica, apoiado pelo reforço da regulamentação, não está a funcionar.

Perante este cenário preocupante, olhando para Portugal em particular, creio que o nosso país tem responsabilidades implícitas, dada a sua ligação ao mar e a diversidade de ecossistemas costeiros. Regressando aos exemplos anteriores, e no meio da nuvem escura que se projeta no horizonte, é possível sentir algum vento de mudança que pode inverter estas histórias. A cooperação entre as instituições científicas, as autoridades e as comunidades piscatórias são algo para olhar com atenção. Projetos como a Pesca ABC, no México, ou a Yaqu Pacha, na América do Sul, são exemplos de como a colaboração com pescadores locais daquelas regiões pode reduzir capturas acidentais e criar práticas mais sustentáveis. Em Portugal, é fundamental iniciar processos de colaboração e co-criação de soluções com todas as partes envolvidas, para depois dar escala a este tipo de iniciativas, oferecendo, por exemplo, aos pescadores ferramentas e mecanismos que lhes permitam continuar a exercer a sua atividade em consonância com a sustentabilidade futura dos recursos naturais.

Nesta linha de atuação, destaco uma iniciativa pioneira e que tem um cunho made in Portugal que me orgulha bastante. A recente criação do IUCN SSC CSS Behaviour Change, o primeiro centro de sobrevivência de espécies, tutelado pelo IUCN SSC, dedicado à mudança do comportamento humano para a conservação das espécies, é um passo concreto para esta mudança de paradigma na gestão da conservação da biodiversidade. Este centro integra as ciências sociais nas estratégias de conservação dando palco e protagonismo ao ser humano para um desfecho mais favorável.

O futuro da conservação marinha não passa apenas por criar legislação ou definir áreas marinhas protegidas no papel, mas de garantir motivações intrínsecas para todos os atores envolvidos, investir em educação para a sustentabilidade e fomentar a corresponsabilidade entre o setor científico, a comunidade piscatória e a sociedade civil.

O que falta, no fundo, é deixarmos de achar que isto se resolve sozinho — ou que é problema dos outros. A proteção da biodiversidade não pode ser vista como uma questão acessória, dependente de vontades isoladas. É preciso articular melhor os esforços de conservação, dar continuidade a projetos já existentes e, acima de tudo, integrar a conservação no planeamento económico e social do nosso país. Porque a alternativa é a perda irreversível de espécies e ecossistemas. E essa perda não será apenas da vida selvagem, será nossa também.