Falamos muito de conservação, mas continua a faltar uma base essencial para que tudo isto seja verdadeiramente eficaz: conhecimento. Multiplicam-se debates, metas internacionais e compromissos públicos, mas sem compreender espécies, ecossistemas e, sobretudo, as pessoas, a conservação arrisca-se a ficar pelas boas intenções.
Não falo apenas do conhecimento científico sobre as espécies e os ecossistemas, mas também o conhecimento dos comportamentos humanos e dos contextos sociais que moldam a forma como se relacionam com a natureza. Sem compreender estes aspetos, a conservação não passa de um conjunto de intenções com impacto limitado.
Portugal possui uma biodiversidade considerável: resultado da sua geografia, clima e ligação histórica ao mar. Mas estudamo-la pouco. Valorizamo-la menos ainda. A ausência de dados consistentes sobre espécies, padrões comportamentais, pressões humanas ou resiliência a fenómenos climáticos torna a conservação uma tarefa reativa, dispendiosa e frequentemente tardia.
No entanto, conhecer bem a biodiversidade implica mais do que observar espécies. Exige compreender os ecossistemas como redes complexas onde cada organismo desempenha uma função e onde qualquer perturbação, por pequena que pareça, pode desencadear efeitos em cadeia. Exige também reconhecer que as ameaças, como a destruição de habitats, poluição, capturas acidentais ou alterações climáticas, não surgem no vazio, mas resultam de comportamentos humanos situados em realidades económicas, sociais e culturais muito específicas.
É precisamente por esta complexidade ecológica que a dimensão humana se tornou incontornável na conservação. Durante décadas, acreditou-se que reforçar a regulamentação seria suficiente para inverter a perda de biodiversidade. Hoje sabemos que não é. Sem perceber como as pessoas decidem, o que as motiva, o que as impede de mudar e como é que cada comunidade interpreta o valor da natureza, qualquer medida de conservação terá efeitos limitados. A proteção das espécies não é apenas uma questão técnica, é, sobretudo, uma questão humana.
O novo centro IUCN SSC CSS Behaviour Change, criado em abril de 2025, surge precisamente para responder a esta necessidade. Mais do que uma nova estrutura, este centro simboliza uma mudança profunda na forma como se pensa a conservação: menos centrada na proibição e mais focada na transformação de comportamentos. É o primeiro centro global dedicado à integração das ciências sociais na conservação e representa uma mudança de paradigma: colocar o estudo do comportamento humano ao mesmo nível que o estudo biológico, reconhecendo que grande parte das soluções passa por compreender e trabalhar com as pessoas, e não apenas legislar sobre elas. Sediado em Portugal e integrado na rede global da IUCN, este centro desenvolve metodologias para compreender motivações e barreiras à ação pró-conservação, trabalhando desde comunidades costeiras a visitantes de áreas protegidas, e apoiando instituições na conceção de intervenções baseadas em evidência científica, capazes de transformar atitudes em comportamentos mensuráveis.
Portugal reúne condições únicas para liderar esta abordagem: património natural valioso, instituições científicas de excelência e vasta tradição ligada ao mar. Para concretizar esta liderança, precisamos de investir consistentemente na produção de conhecimento relevante e integrá-lo nas políticas públicas, nas práticas económicas e nas estratégias de desenvolvimento local. Falta também tornar a ciência mais próxima de quem vive e trabalha nos territórios, envolvendo pescadores, agricultores, municípios, empresas, escolas e sociedade civil numa relação de confiança e corresponsabilidade.
No final, o segredo da conservação das espécies é simples de enunciar, mas exige uma mudança profunda na forma como pensamos o nosso lugar na natureza: só protegemos verdadeiramente aquilo que conhecemos. E conhecer exige escolha, investimento e responsabilidade coletiva.
O que fazer? Financiar programas de investigação que integrem ciências naturais e sociais, exigir que todos os planos de gestão de áreas protegidas incluam estratégias de mudança comportamental baseadas em evidência, e criar parcerias duradouras entre universidades, comunidades locais e o setor privado. Significa também formar uma nova geração de profissionais de conservação fluentes tanto em ecologia como em ciências sociais aplicadas. Portugal tem a oportunidade de mostrar que conservação eficaz não é apenas possível, mas replicável. A escolha é nossa.