O bem-estar de uma pessoa a que podemos chamar de felicidade, em minha opinião, assenta em três pilares fundamentais: o equilíbrio da mente, do corpo e da vida em sociedade. O equilíbrio dos dois primeiros depende fundamentalmente de nós. Ora o da vida em sociedade já depende da colectividade onde nos inserimos. Se os primeiros são importantes, muito discutidos nos dias de hoje, quer por profissionais quer pelas redes sociais,  já a sociedade onde nos inserimos, o seu debate torna-se difícil por ser o reflexo complexo do nosso comportamento coletivo. Apesar do nosso clima encantador e dos costumes que nos dão fama e riqueza turística, os dados demonstram que os povos mais felizes vivem no Norte da Europa, encabeçados pela Finlândia. Fomos educados na crença de que nós, os latinos, éramos mais felizes e expansivos, por oposição aos povos nórdicos, classicamente descritos como frios, tristonhos e beberrões. Talvez isso tenha sido verdade no passado.Como é que então  nas actuais tabelas da felicidade, se explica esta inversão?

Teremos andado distraídos?

Na década de 60,  o Norte trabalhava com resiliência sobre as suas próprias escassezes. Por imperativos climáticos e de sobrevivência, o Estado assumiu ali o dever de uma regulação forte e rigorosa, elegendo o civismo comunitário como base das instituições. Os nórdicos compreenderam cedo que o bem-estar individual emana do bom funcionamento coletivo. Já o Sul, historicamente abençoado pelo sol e por um povo generoso, esqueceu uma lei fundamental: para que uma sociedade progrida tem de ter regras claras, objetivas e assentes no bem-estar do cidadão. Focámo-nos na construção de infraestruturas modernas (auto estradas, hospitais e grandes obras de betão), assumindo que a obra física bastaria para o desenvolvimento. Esquecemos, contudo, que o betão não funciona sem ferramentas cívicas que ensinem os cidadãos a utilizá-lo e a evoluir através dele.Criou-se, assim, uma cultura desequilibrada onde o Estado tem obrigações e os cidadãos parecem ter apenas direitos. Ora, para exercer direitos, é obrigatório ter contribuído ativamente para a sua criação, tomando consciência que cada direito conquistado corresponde ao dever de respeitar as garantias dos outros. Evito enquadrar esta análise em ideologias políticas; o tema da felicidade é universal. A sociedade somos todos nós e, somos nós quem através dos nossos representantes temos o poder de criar as condições para podermos vir a ser felizes.

Seremos tanto mais felizes quanto mais sinceros formos connosco próprios antes de adormecer. Como é que quero acordar amanhã? Com alguém acampado à minha porta dizendo que tem os mesmos direitos que eu, sem nada ter contribuído para isso, ou com a consciência tranquila de que o que tenho é fruto do meu trabalho e mérito? Se conseguirmos mudar esta mentalidade, começaremos a recuperar os anos perdidos em que o Estado priorizou o betão em detrimento das pessoas. Esta mudança está nas nossas mãos através de cinco atitudes cívicas:

1.Votar com realismo
Escolher líderes que assumam com coragem que “sem ovos não se fazem omeletes”, educando o eleitorado para a responsabilidade económica.

2. Exigir transparência fiscal 
Ter a consciência de que a carga fiscal excessiva se tornou numa forma de escravatura moderna, exigindo o direito de auditar e opinar sobre o destino dos nossos impostos.

3. Combater a demagogia
Perante a promessa fácil do “comigo seria diferente”, fazer sempre a pergunta pragmática: “O que faria concretamente, de forma diferente, com que orçamento e como?

4. Exigir o retorno do esforço
Após 50 anos a ouvir que “é preciso fazer sacrifícios”, é tempo de exigir resultados. A gestão dos recursos públicos não pode continuar a recair da mesma forma sobre os contribuintes.

5. Reter o talento jovem
Assumir a necessidade de emagrecer o Estado em prol de uma causa nacional, e com esses recursos promover a valorização salarial do trabalho, em especial dos nossos jovens e da mão de obra jovem estrangeira qualificada que se reveja nesta política.

Para alcançarmos a verdadeira felicidade, social, precisamos de abandonar a ilusão de que o bem-estar é um produto automático do clima ou da subsidiodependência. A felicidade do Norte não é um privilégio genético; é o resultado direto de décadas de civismo e regras claras. A inversão da tabela está ao nosso alcance, mas exige começarmos, hoje mesmo, a ser honestos connosco próprios sobre o País que queremos deixar amanhã.

A Felicidade não se possui. Conquista-se.