Dino D’Santiago, Rosa Monteiro e Catarina Oliveira são três pessoas com trajetórias muito diferentes. Um músico, uma socióloga e uma nutricionista. Mas têm algo em comum: representam aquilo que muitos raramente veem — pessoas semelhantes a si em posições de influência, visibilidade ou decisão.

A importância de termos modelos com quem nos identificamos é que estes não são apenas inspiração. São espelhos e, muitas vezes, as primeiras portas para imaginarmos futuros antes impensáveis.

A ideia de “modelos representativos” — figuras que partilham características identitárias com grupos historicamente subrepresentados — está longe de ser uma preocupação secundária. Estudos em psicologia social demonstram que a representação influencia diretamente a autoestima, a motivação e o desempenho. A teoria da “motivação baseada na identidade” (Oyserman, 2015) explica como a perceção de que alguém “como eu” alcançou determinado patamar pode alterar comportamentos e persistências. Quando sentimos que pertencemos, arriscamos mais. Quando nunca vimos “ninguém como nós” a ter sucesso, começamos a acreditar que talvez não seja possível.

A ciência confirma-o. Uma revisão sistemática publicada na Revista Internacional de Educação em STEM (2021) concluiu que a eficácia dos modelos depende de três fatores: competência percebida, semelhança e sucesso alcançável. Ou seja, não basta ter fama ou alcançar o sucesso. É preciso que a pessoa inspire sem parecer inalcançável, e que a semelhança — seja de género, etnia, classe ou deficiência — ative essa motivação identitária.

No contexto português, figuras como Dino D’Santiago, Rosa Monteiro ou Catarina Oliveira representam pontos de viragem. O primeiro, um músico afrodescendente que fala abertamente sobre identidade e pertença. A segunda, socióloga, ex-governante que deu visibilidade institucional às causas da igualdade. A terceira, nutricionista, e ativista com deficiência, que tem educado o país sobre acessibilidade e dignidade. Estas figuras não são apenas exemplos de sucesso. São modelos que expandem o imaginário coletivo sobre quem pode estar onde.

E a ausência de representatividade? Estudos mostram que pode gerar efeitos psicológicos semelhantes às chamadas “ameaças estereotipadas” — a sensação de que, por pertencer a certo grupo, seremos inevitavelmente piores ou menos bem-vindos. A presença de modelos semelhantes reduz essa ameaça, como demonstra a investigação sobre “sinais de segurança identitária” (Steele, 2008): quando sinais de pertença são claros, o desempenho melhora.

A representação, portanto, não é um tema de nicho. É um mecanismo poderoso de inclusão social, de alargamento de horizontes e de combate à desigualdade. Quando dizemos que “a representatividade importa”, não estamos a defender favoritismos identitários. Estamos a afirmar que toda a gente deve poder crescer com exemplos que digam: “tu também podes”.

É provável que quem nunca duvidou de que podia ser médico (ou médica), artista ou decisor político (ou decisora política) tenha crescido a ver alguém semelhante a si nesses papéis. Mas e quem nunca viu esse espelho? Talvez esteja na hora de garantir que todos o tenham.

O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.