Em Campo de Ourique, zona de mistura burguesa e popular, vejo um homem simples, sentado na bicicleta, a pôr música para quem passa através de uma coluna amarrada com uma corda num suporte atrás do selim.

Sorri, tímido, quando os nossos olhares se cruzam. Aceno-lhe, mostrando aprovação pelo “Corazón Espinado” de Santana, que ecoa no Jardim da Parada como se a guitarra estivesse ali mesmo a chorar.

É feliz por fazer felizes os outros. Mesmo que apenas por instantes, quem assiste a este pequeno espectáculo esquece as tropelias da vida e rende-se à beleza da simplicidade.

O rosto magro e enrugado, aparentando uns cinquenta e muitos, denuncia uma vida difícil. Nota-se, pelo aspecto físico algo degradado, que ainda não entrou na onda gourmet do kombucha. Não alinhou com a gentrificação da capital portuguesa — prefere habitar uma Lisboa antiga, feita a pedal e a calor reflectido na calçada. Pedala depressa, mas não em demasia. Curioso: nunca vi ninguém pedalar tão devagar numa cidade onde sempre se andou depressa.

Num mundo obcecado pela produtividade, não podemos esquecer aqueles que pedalam apenas para alegrar o dia dos outros. Cada volta do pedal é um gesto silencioso de ternura, mesmo que muitos, com os airpods nos ouvidos e o olhar apressado, só vejam o mau aspecto de um homem envelhecido.

Passam por ele sem o ver, alheios ao gesto gratuito que ali se repete. E ele fica, no mesmo quarteirão, a espalhar melodias pelo ar — quer queiram ou não.