Na escola pública, como era comum, todos sabiam onde se sentar. Era ali que nos sentíamos pessoas, com um professor que tirava tempo e energia da sua vida, da sua família, mais ou menos amada, para nos ensinar.
As instalações eram caducas; choviam pingos nas salas nos dias mais cinzentos.
Mas nada falta a um jovem quando tem alguns amigos por perto e conhecimento, em contraste com a dureza fria da mistura de betão e escuridão suburbana.
Em Português, conhecíamos poetas como Mário de Sá-Carneiro, jovem atormentado que se suicidou em Paris, cansado de viver na incerteza e na pobreza. O drama dos escritores, afinal, atravessa décadas e séculos, com raízes fundas na alma portuguesa. Recordo-me de, aos quinze anos, imaginar Mário de Sá-Carneiro a percorrer a cidade das luzes no início do século XX, perdido entre a vida boémia de um poeta assombrado e os versos que se formavam na sua cabeça.
Era nesse momento que abríamos asas rumo à poesia, à musicalidade, à beleza intemporal de outros séculos, mas que nos tocava como se tivesse sido escrita no dia anterior. As palavras bem-ditas são imortais, desviando-se da marca do tempo.
Ao olhar pelo retrovisor do tempo, gostaria de ter aproveitado melhor. Contudo, ouço relatos de adolescentes e jovens que passam anos sem professor em várias disciplinas.
Não podemos deixar os nossos jovens despidos de conhecimento. Temos de ter a maturidade de perceber que precisamos de poesia, de saber, de pensamento. Temos de elevar as mentes além da superficialidade diária. Não podemos criticar as redes sociais e, ao mesmo tempo, não encontrar uma solução para a educação.
Com o maior cinismo, ninguém parece importar-se. Preferem produzir cartazes mesquinhos a atacar minorias ou a criticar comportamentos e etiquetas modernas. “Antigamente é que era”, o chavão milenar.
Glorificamos o analfabetismo e a miséria estrutural dos tempos do Estado Novo. Agora, assistimos com passividade ao regresso da escuridão, aquela do senhor de Santa Comba Dão. Hoje, a educação é um luxo, como outrora, quando apenas certas pessoas de determinadas classes podiam aspirar a estudar e a evoluir.
Afinal, somos mesmo uma República Portuguesa ou apenas mais um chavão de marketing político?
Muitos dirão que não interessa. Afinal, já nada interessa. Porém, atrás destes tempos, venham outros tempos. Quando o futuro chegar, todos dirão o quão democratas e libertadores dos povos sempre foram. Mas é nas trevas que precisamos de erguer a luz.
Precisamos de colocar a mão na consciência e não deixar cair a escola pública. Não por uma questão ideológica, nem para cristalizar uma trincheira política, mas porque ela é essencial para aqueles que vivem na nebulosidade terem um rasgo de luz.
Poderem conhecer os versos de Mário de Sá-Carneiro. Conhecer correntes como o Futurismo e o Expressionismo.
Ao desistirmos da escola pública, estamos a permitir que a civilização termine às portas de Lisboa.
Sim, é disso que se trata: civilização ou barbárie.