Há um primeiro dia para tudo. Há um novo amanhecer que se esconde subtilmente entre tudo aquilo que é novo.
Estou farto de ver como o mundo tem perdido cor. Recentemente, alguém observou que a maioria dos carros é branca, preta ou cinzenta. “O mundo está a perder a luz”, confessou-me, em tom de quem faz uma descoberta avassaladora. Concordei com a afirmação e, mais do que isso, senti que era um pensamento clinicamente observador, quase poético.
Nos anos 90, podíamos ver carros amarelos, vermelhos, azuis. Cores vivas, que inspiravam e refletiam a esperança dos tempos. Uma década que, embora imperfeita, projetava anos de crescimento económico e paz geopolítica: uma nova era, mais humana, mais progressista, onde parecia impossível recuar.
Hoje, assistimos ao triunfo de um cinismo silencioso. A desconfiança instalou-se entre nós. Atualmente, a empatia pelo semelhante é tratada como um panfleto de publicidade na caixa do correio a acumular pó de meses. Os vizinhos já não jantam em casa uns dos outros. Os amigos já não tocam à campainha das casas das avós só para saberem se o amigo está lá, enquanto os pais ainda não saíram do trabalho. Já não há tempo para a espontaneidade, para a brincadeira, para a futilidade necessária ao bem-estar humano.
Temos perdido a liberdade porque confundimos liberdade com produtividade. Penalizamos o erro, porque não entendemos como ele é essencial à experiência e ao progresso. Ninguém evolui sem errar. Lembro-me de ficar nervoso na primária quando a professora me pedia para ir ao quadro. As mãos suavam só de pensar que podia fazer má figura em frente a uma plateia cruel. Como aquele homem que anda em bicos de pés sobre um cabo que liga dois arranha-céus numa qualquer metrópole ocidental.
Achamos que temos de ser mais eficazes, mais eficientes, mais “focados”. Mas acabamos presos num ciclo de esgotamento cujo resultado é precisamente o inverso: estamos consumidos, e já não conseguimos produzir nada de especial. E, enquanto isto acontece, o sistema continua a apontar dedos e culpas, sem nunca olhar para as suas próprias falhas. Políticos e líderes sem plano, a fazer gestão à vista de um ciclo eleitoral ou de um fecho de ano contabilístico reproduzido numa folha de Excel, que, convenhamos, já ninguém quer saber.
Apesar do niilismo evidente, a alma humana procura sempre algo além da matéria. Como os milhões que se deslocam para Meca todos os anos. Estes buscam a redenção espiritual, tocar em locais da alma que nenhuma smart TV consegue substituir. Não sabemos viver no meio termo. Uma vida sem problemas e nuvens seria demasiado aborrecida para a maioria. Somos viciados em encontrar algo para nos atormentar. Nunca estamos numa plenitude perpétua. E ainda bem que assim é.
São nas maiores tormentas internas que precisamos da cor: esse rasgo de luz que, por vezes, encontramos nas alturas mais inesperadas. Quando perdi o meu avô, senti que pela primeira vez comecei a afastar-me irredutivelmente do medo da morte. Ao ver o seu caixão, percebi que também eu estava condenado a esse desfecho. A partir daí fui-me aproximando do risco como ideal. Nessa altura, o meu mundo interior ficou mais escuro, mas li essa aprendizagem valiosa como uma mensagem do meu avô para seguir os meus caminhos por mais sinuosos que se apresentem. Mesmo que o desfecho final seja uma longa noite escura.
Porém, o fatalismo não tem de ser uma condenação. Acredito ainda na esperança de um sol luminoso que aqueça e ilumine as ruínas do pós-modernismo e do capitalismo avançado em que vivemos. Precisamos de soluções, não de mais culpas. Sobretudo porque essa condenação tem caído sempre sobre os mesmos — os mais excluídos e marginalizados de todas as sociedades.
Falo sem superioridade moral, porque sei que, por vezes, também me contradigo.
Nem sempre tenho otimismo.
Nem sempre deixo um raio de luz na vida dos outros como símbolo de esperança.
Mas, ao ter consciência disso, creio que já é um primeiro passo para reencontrar a estrada justa.
Já tentei fugir da nostalgia. Porém, este sentimento de ser português está colado à minha essência. Perdido entre os acordes de Carlos Paredes, o cheiro de sardinha na grelha e um copo de vinho tinto, quanto mais carrascão, melhor. Mesmo depois de 1986, após a entrada na UE, há coisas difíceis de apagar, apesar de tentarem com decretos.
Preciso de ver um Fiat Punto vermelho ou um Seat Ibiza amarelo. De beber uma Coca-Cola de uma lata com ligeiro sabor a ferrugem enquanto espero a minha vez para andar no baloiço. Passava tardes em concursos de saltos que eram, afinal, uma celebração da infância. Os pais de hoje diriam que isso era uma estupidez. Um risco demasiado grande para uma mera brincadeira infantil.
Talvez seja por não corrermos mais riscos que o mundo se tornou tão cinzento. Por isso, permitam-me dizer, com todo o respeito: não me chateiem mais, seus chatos cinzentões.