Aprendi a gostar das pequenas coisas. Não por simplismo, mas como forma de resistência a um mundo que parece tornar-se, dia após dia, mais complexo. “Aumentaram a idade da reforma; querem agora que um gajo trabalhe até morrer”, resmunga o homem ao balcão do café do meu bairro. Traz o escuro do cansaço à volta dos olhos, um inchaço permanente que assusta. Ele próprio parece assustado com aquilo que a vida ainda lhe reserva. Esta ansiedade tão portuguesa de querer resolver o futuro no presente.
Vivemos com a corda na garganta e habituámo-nos a este leve sabor a sangue na boca. Somos um povo sem forças para lutar pelos nossos direitos, não por ignorância histórica, mas porque, com a nossa baixa autoestima crónica, achamos sempre que merecemos menos do que realmente merecemos. E alguns, elites financeiras e patrões, esfregam as mãos por lhes ter calhado, na lotaria da vida, um povo que se tem em tão pouca conta.
Há uma greve marcada para 11 de Dezembro. E, no entanto, vemos um país e um parlamento mais preocupado com guerras ideológicas para decidir qual das datas é mais importante para a democracia portuguesa: o 25 de Abril ou o 25 de Novembro. Esta falta de pragmatismo assusta todos. Até o senhor de 60 anos, cansado, que já não encontra respostas naqueles que são eleitos para as dar. Esses parecem mais interessados em discussões fúteis, infantis e inócuas. Perdem-se nestas guerras de alecrim e manjerona como se fosse de propósito, para que delas nunca nasça nada que resolva, de facto, algum problema.
Corria o ano de 2010, andava eu pelas secretárias gastas de um liceu da periferia lisboeta. A minha cabeça andava à roda, assim como parecia andar tudo e todos à minha volta, ossos do ofício próprios da adolescência. Uma greve de professores rompia pela escola. Os dirigentes sindicais, afectos aos partidos de esquerda, vieram demonstrar solidariedade connosco. Contudo, a maioria não tinha consciência política; estava apenas feliz por não ter aulas. Mas, nesse momento, percebi a força do coletivo e da solidariedade em nome do bem comum. A força do todo pode alcançar mudanças estruturais.
Nesse dia, os alunos acabaram por juntar-se aos professores e dirigentes sindicais, e até as televisões apareceram para testemunhar a reivindicação popular. Hoje, julgo que seria impossível. A juventude encontra-se demasiado amorfa, procurando mais a culpa pessoal do que uma crítica efectiva ao sistema que acaba por esmagar os sonhos dos adolescentes de ontem. Depois dessa manifestação, fizemos o caminho de sempre para casa, entre os passeios gastos e cinzentos de uma cidade industrial. Parámos na mesma papelaria de sempre para comprar gomas e cigarros avulso, aquilo que os trocos nos permitiam. A empregada dessa loja tinha ela também os olhos envoltos na escuridão, como um cadáver adiado. Contudo, tínhamos outro alento no peito: aquele do dever cumprido, de termos tido a coragem de estar numa luta correta, do lado certo da história. Podia não ser verdade, mas o que conta é a nossa convicção.
Se calhar os sonhos já não são vendáveis ou foram transformados em casas de luxo, inacessíveis para quem vem da periferia. Talvez um dia acordemos deste sono coletivo. O problema é que, quando isso acontecer, pode já ser tarde.