Sabia que há professores que fazem uma grande quantidade de trabalho de forma obrigatória e não recebem nenhuma compensação pelo seu trabalho? Sim. Leu bem. Refiro-me, claro, à correção de provas ou exames nacionais que é de aceitação obrigatória e de compensação gratuita.

Para além de ser um grande desrespeito a todo o trabalho que é desenvolvido pelos professores, a falta de uma compensação financeira traz alguns problemas ao processo. Alguns professores, especialmente aqueles que já estão há mais anos na carreira ou que estão mais cansados deste processo, metem baixa nesta altura das correções, o que faz com que o secretariado dos exames tenha de distribuir mais exames por professor ou que tenham de chamar professores que teriam as condições para que, naquele ano, não terem de fazer este serviço.

Ora, com as constantes, e cada vez mais aceleradas, saídas de professores para a reforma, pergunto-me se o limite estabelecido pela lei de 70 exames por professor corretor não será cada vez mais atingido ou até terá ser ultrapassado em algum momento. De qualquer das formas, 70 exames para corrigir em apenas duas semanas de trabalho é demasiado, especialmente, quando alguns professores, para além de fazerem correções têm ainda de se apresentar ao serviço por variadas razões.

Basta olharmos para as últimas provas ou exames nacionais e percebemos que a sua capacidade de avaliar a capacidade crítica e a resolução de problemas dos alunos é cada vez menor, com uma maior prevalência das perguntas de escolha múltipla, para que a diminuição de professores corretores não afete este momento de avaliação externa. Mas qual será a validade destes momentos com uma avaliação tão mínima e superficial das aprendizagens essenciais?

Não me oponho à realização de exames ou provas, porque ainda lhes atribuo a capacidade de avaliar os alunos da forma mais igualitária possível: em que todos são anónimos e cujas origens e passado académico não são relevantes ou reconhecidos, mas acredito que está mais do que na hora de começarmos a discutir uma compensação financeira para quem é chamado a fazer este serviço. Essa compensação já existiu em Portugal e foi retirada. Mas é impossível olharmos para a atual conjuntura e não vermos a sua necessidade para tornar a globalidade desta avaliação externa mais eficaz em avaliar os estudantes e mais justa para quem a corrige.

O argumento habitual para contrariar esta possibilidade é o de que os professores corretores são dispensados de desempenhar qualquer função, para além da estritamente essencial, mantendo assim as 35 horas semanais de trabalho destinadas à correção. No entanto, esta não é a realidade que é pedida à maioria dos professores e, olhando para a forma como todo o processo de avaliação é estruturado e percebendo as várias revisões que têm de ser feitas a cada uma das provas, 35 horas por semana não seriam suficientes para corrigir tudo aquilo que nos cai em cima.

Esta compensação deveria ser discutida com os sindicatos e com os movimentos independentes de professores e deveria ser um valor exato para cada prova corrigida por qualquer professor, independentemente do grau de ensino ou da disciplina. O que me estou a referir não é um valor elevado, mas um simples valor que ajude a diminuir a frustração que os professores sentem sobre este serviço que lhes é imposto ano após ano.

Se queremos um ensino exigente e um sistema de exames que realmente avalie as aprendizagens essenciais, é fundamental que os professores envolvidos neste processo sejam devidamente reconhecidos e valorizados. Caso contrário, arriscamo-nos a continuar a desvalorizar não só os docentes, mas também a própria importância da educação em Portugal.