Como sabem todos os que me conhecem, não percebo nada de futebol. Mas sei que Cristiano Ronaldo é capitão da selecção nacional e um grande jogador de futebol, talvez o melhor do mundo. E também que é o português mais famoso do globo. Sei ainda que se chama Ronaldo em homenagem a Ronald Reagan, o tal que, antes do advento de Trump, era “o actor de segunda” preferido da Esquerda, o representante máximo do mais abjecto fascismo, da mais extrema das extremas direitas. Um sinal premonitório, talvez.

Ronaldo já dera indícios de perdição: caíra na blasfémia de falar da sua fé em Deus, incorrera na heresia de se manifestar contra a agenda “cultural” das novas esquerdas e cometera o pecado capital de dizer bem de Trump.  Daí a precipitar-se na Geena da Casa Branca na comitiva do mafarrico Mohamed Ben Salman para cair nos braços do Grande Satã seria um passo.

“Entrou por terrenos que não domina” – afirmou doutoralmente um especialista, desses que, se deixarmos, nos entram em casa para nos explicarem o mundo.  Ronaldo podia ser muito bom nos terrenos relvados, a correr e a dar chutos na bola, mas não percebia nada dos complexos terrenos da alta política e estratégia internacional (que eles, especialistas, dominavam). No fundo, não passava de um futebolista iletrado de Câmara de Lobos que cometera “o engano” (ou, menos insultuoso para Ronaldo mas mais grave para Portugal e para o mundo, “a traição”) de se sentar à mesa com o Hitler norte-americano, a estrela negra de todos os polígrafos, o símbolo da direita radical e do populismo neo-fascista. E depois, Ronaldo era um funcionário da Arábia Saudita, um “animal de companhia” do Xeique, que se deixara passear até à Casa Branca pela trela das suas obrigações contratuais, a fim de branquear o regime saudita e amaciar o Ogre norte-americano, que, como é sabido, se alimenta de celebridade e de celebridades (sendo, de resto o único político que usa e aprecia a iguaria). Sim, Ronaldo, carente de palco e de atenção, queria palco e atenção, o pobre queria estar entre bilionários e ombrear com os poderosos da terra…

Mas se queria palco, enganou-se, porque – sempre segundo os especialistas nacionais – foi parca a projecção internacional do crack português. Ainda que a sua visita à Casa Branca tivesse saído com destaque em alguns órgãos de comunicação de somenos (New York Times, Le Figaro, C-News, Paris Match, 24 heures, El País, ABC, La Razón), o que era essa efémera glória, perante a gravidade do acto que cometera? Não mais do que os trinta dinheiros de Judas, a vil recompensa por uma inqualificável traição à pátria (ou melhor, à boa opinião dos fazedores de opinião da pátria).

Isto e muito mais disseram os media e os comentadores domésticos que não costumam falhar sobre a América (excepto, talvez, quando da eleição americana de 5 de Novembro de 2024, que afinal Kamala Harris  não ganhou, ou quando, nas anteriores presidenciais, apostaram tudo na Administração Hillary).  Engano, ignorância, ambição, ganância, traição, tudo isso estaria por detrás do abjecto comportamento de Ronaldo.

Tudo menos a motivação mais simples – a avançada pelo conhecido editor de desporto do New York Times, Henry Bushnell, em “Ronaldo, Trump, MBS at the White House? This is the world in 2025 (and World Cup in 2026)”.

E o que dizia Bushnell no editorial, depois de elaborar sobre o interesse mútuo de Trump e Ronaldo no encontro e sobre os vários interesses desportivos, económicos e políticos em jogo no jantar da Casa Branca? Dizia que, quanto a Ronaldo, devia conceber-se a explicação mais simples (que é também a mais inconcebível para a nossa “boa opinião”):  que o futebolista português quisera conhecer Trump porque – imagine-se – admirava Trump, para ele o único capaz de acção, ou da acção necessária para se pudesse fazer a paz.  De resto, tinha-o dito claramente a Piers Morgan: “Gostava um dia de o encontrar … Quero mesmo estar com ele, aqui ou onde quer que seja, porque ele é uma das pessoas que podem fazer as coisas acontecer. E eu gosto de gente assim”.

Ora Cristiano podia passar entre os pingos da chuva com uma declaração destas na América, mas não aqui, não em Portugal. Aqui não se pode gostar de “gente assim”.  Aqui, só gostam de “gente assim” os ignorantes, os enganados, os ambiciosos, os gananciosos, os traidores.

Pensando bem (ou tão bem como os nossos bem-pensantes) deve até ter sido para subir na consideração geral, começando por subir na consideração doméstica, que Donald Trump, o odioso pináculo da “gente assim”, quis ter Ronaldo na Casa Branca, chegando mesmo a confessá-lo no discurso do jantar.  Disse o Presidente norte-americano que quando apresentou Ronaldo a Barron, seu grande fã, subiu na consideração do filho: “I think he respects his father a little bit more now” .

Como é sabido, contribuir para que Donald Trump suba na consideração de quem quer que seja é um pecado capital e um acto de traição. E vindo de Cristiano Ronaldo, uma das bandeiras nacionais, a traição é à pátria.

Não admira que o país mediático tenha ficado entre o choque e a incredulidade. Efeitos do TDS, Trump derangement syndrome, que não os poupa.