Pode parecer bizarro, mas dois poemas sobre as aventuras e desventuras de piratas e arruaceiros, envolvidos por uma multidão de deuses em guerra, formaram o pilar central da nossa civilização. Homero, ou o nome que se dá a uma tradição oral difícil de datar, compôs a Ilíada e a Odisseia. Deixemos de parte a discussão sobre a diferente autoria dos dois poemas e concentremo-nos em coisas mais básicas. Se a Ilíada é o poema sobre Ilium (Tróia), a Odisseia canta a epopeia de um homem, Odisseus – ou na forma grega importada para a cultura latina, Ulisses. Isto serve para clarificar que, nas sucessivas adaptações de Homero (a mais gloriosa, a de Virgílio) e nas sucessivas contestações (a mais poderosa, a de Platão), a designação Odisseia força-nos a confrontar a figura – a pessoa, a conduta, a personalidade, o destino – de Odisseus (Ulisses).

Agora chegou a vez de o mais brilhante realizador da sua geração, Christopher Nolan, apresentar a sua própria adaptação e interpretação da Odisseia – que é o mesmo que dizer de Ulisses. E não há como contornar a conclusão: o resultado é uma desilusão. Não porque o filme não seja visualmente poderoso, nem que Nolan seja incapaz de soluções narrativas interessantes ou de correcções bem pensadas de saltos inevitáveis no enredo homérico. A desilusão também não vem de equívocos cinematográficos absurdos, como o momento em que Ulisses, errando no mar Mediterrâneo por 10 anos para fazer distâncias relativamente pequenas, mal chega a Ítaca, lança-se ao mar para num ápice se pôr numa outra ilha, mais exactamente num templo, com vista a socorrer o seu filho Telémaco de uma emboscada dos pretendentes. É uma cena inventada, escusada e implausível, ainda que não seja essa a mácula que se interpõe entre um filme esquecível que está a fazer uma fortuna e um clássico da história do cinema.

Nolan quis trazer Homero para “novas audiências globais”, como ele próprio disse a título de justificação dos anacronismos do filme e das escolhas de actores e actrizes, que obedeceram a todo o cânone da correcção política woke de Hollywood. Seria talvez estéril e certamente impossível uma adaptação literal de Homero para o cinema. Mas o que Nolan nos proporcionou não foi uma leitura capaz de ir além do quadro homérico abrindo neste novos horizontes. O que nos foi dado a assistir foi uma descida aos complexos ideológicos e traumas americanos deste início de século, alguns deles não particularmente interessantes, outros verdadeiramente enfadonhos. Na fascinante história das adaptações de Homero ao longo dos séculos, o que separava a banalidade de criação imortal estava na grandeza com que se respondia, no acto de adaptação/interpretação à grandeza de Homero. Pelo olhar de Hollywood, o que a sociedade americana tem para oferecer ao mundo é, infelizmente, desinteressante e pusilânime.

Confrontar a figura de Ulisses não tem de obedecer cegamente ao quadro de Homero – quadro esse de difícil interpretação, de resto. Mas substituir o rei de Ítaca, objecto da rivalidade dos deuses, o homem dos mil ardis, o subtil e prudente Ulisses, pelo enésimo John Rambo da cultura popular americana exigiria, no mínimo, uma alteração do título do filme. O Ulisses interpretado por Matt Damon regressou do saque de Troia em pleno choque pós-traumático provocado pela violência que testemunhou e perpetrou, como se viesse agora de uma patrulha assassina por uma aldeia Vietcong. O Ulisses de Nolan deixa também de ser um objecto da guerra dos deuses, benquisto por uns, amaldiçoado por outros.

No mundo de Nolan, os deuses desaparecem, deixando para trás apenas as indispensáveis figuras fantásticas com as quais Ulisses se vai cruzando. E a pobre Atena, é reduzida à figura de uma terapeuta mal paga, que se limita a consolar chorosa a dor de Ulisses. Para que não restem dúvidas na cabeça do espectador de que está nos EUA hollywoodescos de 2026 desertificados do divino, Nolan põe Ulisses a repetir vezes sem conta que está ali para desafiar os deuses, fazendo dele um céptico realista. A colisão com Homero não podia ser maior: na versão original, Ulisses não termina a sua epopeia rumo a uma homenagem aos homens que comandou, acompanhado pela sua mulher, como se estivesse a cumprir a promessa de uma segunda lua-de-mel na pré-reforma. Na versão original, Ulisses aceita a missão de homenagear os deuses, em particular na instituição dos sacrifícios a Poseidon numa terra que o ignorasse.

Nolan quis fazer-nos pousar numa terra abandonada pelos deuses. Mas o Ulisses que nos propõe padece de uma consciência cristã estruturada pela culpa, arrependimento e busca de expiação – e redenção – inventada pelo cristianismo. Mas essa consciência não é animada pelo amor do Deus criador e redentor; ela está afogada no pântano dos reconhecimentos e repúdios da sociedade americana e dos seus debates paroquiais. O que move as dores de consciência de Ulisses e o seu desejo e expiação nem sequer é a culpa pela morte dos seus camaradas – é a violação da “lei de Zeus”, uma suposta lei que, no espírito grego consagrava os deveres de hospitalidade ao estrangeiro de passagem, mas que nesta versão manda que amemos os estrangeiros. É isso, mais do que qualquer coisa, que anuncia uma Idade das Trevas, e Nolan não disfarça que é isso que devemos pressentir no Verão de 2026, se ainda nos resta alguma consciência. Acontece que a consciência de Ulisses já não podia ser inteiramente cristã; não é mais do que a ruína contemporânea que resta desse edifício onde em tempos morou a alma europeia e americana.

Finalmente, Ulisses como símbolo da masculinidade também teve de ser desconstruído. A crueza de Homero – ou a sua particular atenção a todos os cantos da alma humana – pôs em Ulisses a masculinidade da rapina, da sede de despojos, de vontade de poder e de vitória sobre o inimigo, do amor pela fama imorredoira, do querer cobrir-se de glória pelo reconhecimento alheio e pelo feito inolvidável e pela sedução infalível das várias mulheres (mortais e imortais) que o destino lhe oferece. Com Nolan, tudo isso aparece como evidentemente intolerável. E a masculinidade encontra-se agora exclusivamente na força exercida ao serviço da justiça estrita e na busca da “paz interior”, mesmo que ao preço da renúncia ao poder de Ítaca. Talvez não seja por acaso que, além dos deuses, também Aquiles tenha desertado – nem a sombra dele encontramos no Hades, nem o seu corpo nas memórias de Ulisses. Seria masculinidade a mais, é verdade. Talvez masculinidade dita tóxica.

Ao contrário do que reza a pretensão, vivemos numa época imensamente moralizadora sobre todas as outras que a antecederam. Julga-se mais original, mais profunda e mais bondosa do que todas as anteriores. Esquece que nem sempre é a mais interessante. E isso, na criação artística, conta decisivamente. Nolan esqueceu-se, ou quis esquecer-se, como o Ulisses que ele inventou quis esquecer-se das horrores da sua experiência, mas que permitiram descobrir as maravilhas do mundo e espalhar os seus feitos na memória dos outros.