Fernando Pessoa, debruçado sobre a sua escrivaninha vitoriana, repetia o ritual da escrita dos seus poemas com a insistência dos génios. Sim, essa mesma obsessão que caracteriza todos aqueles que se entregam de forma absoluta a algo. Parecem abstrair-se da realidade mundana, perdidos no seu emaranhado, onde o único objetivo é cumprir o desígnio da sua arte. São hedonistas da metafísica, monoteístas do Belo, devotos na busca de um ideal que transcende a sua própria existência.

Mas nem só na arte a repetição se manifesta. Na espiritualidade, a repetição sempre ocupou um papel fulcral. Podemos assistir a fenómenos como as peregrinações aos locais sagrados de culto. Só uma força de fé pode levar milhares de pessoas a repetirem os mesmos percursos ao longo de vários séculos. A repetição oferece-nos também uma certa segurança, como se, ao repetirmos, voltássemos a um espaço seguro – uma tranquilidade por caminharmos pelas pegadas cimentadas por outros antes de nós, que serão também o caminho daqueles que virão depois.

A repetição leva ainda à construção do presente. Podemos vê-la nas movimentações diárias de grandes massas de pessoas que limpam os escritórios, as nossas casas. Alguns desempenham outros serviços essenciais para o desenvolvimento da nossa sociedade. No fundo, a rotina, apesar de desgastante, é a força motriz da construção e desenvolvimento social ao longo da história, desde as pirâmides do Egito até à economia moderna, composta por serviços, fábricas e funções de interesse público.

Na cultura ocidental, Nietzsche acreditava n`O Eterno Retorno, como desenvolveu sobretudo na sua obra Assim Falava Zaratrusta. O filósofo alemão defendia que o tempo e o universo são cíclicos, ou seja, tudo o que acontece repete-se infinitamente. Segundo essa ideia, cada momento da vida — com todas as suas alegrias, dores, escolhas e acontecimentos — retorna incessantemente, exatamente da mesma maneira, por toda a eternidade.

Na cultura oriental, na Tradição Zen, a ideia de repetição está ligada à iluminação (conhecimento) e a uma forma de nos conectarmos ao presente. Duas formas distintas de ver a repetição através dos olhos de duas tradições culturais: a asiática, que liga a repetição ao presente, e a europeia, que remete para um ciclo eterno, entre passado, presente e futuro.

A nossa rotina, os nossos caminhos preferidos, os pratos prediletos, os filmes que não nos saem da cabeça são pedaços de repetições, muitas vezes com raízes no passado, mas que, ainda assim, moldam e constroem o presente e o futuro. Perceber esta linha do tempo, que se entrelaça entre o que já foi, o que é e o que está por vir, faz-nos olhar para o espelho e refletir sobre a humanidade através das suas rotinas.

Bem sei que o dia-a-dia pode ser cansativo e, por vezes, monótono, mas por que não ver nele algo maior do que a nossa própria vida? Mesmo que não acreditemos, inevitavelmente fazemos parte de um ciclo maior que se renova, que se repete. Resta a cada um de nós encontrar o significado de cada repetição. E está tudo sempre a acontecer, outra e outra vez.