O encerramento das instituições de Ensino Superior levou a que professores e alunos tivessem experimentado, muitas vezes pela primeira vez, o ensino à distância. O dar aulas no Anfiteatro ABC no edifício XPTO, foi substituído pelas salas virtuais do MOODLE, ZOOM ou SKIPE. A experiência foi muito variada: uns gostaram, outros não; não funcionou igualmente bem para todas as disciplinas; a infraestrutura nem sempre esteve à altura; e mais estudantes do que esperado não tiveram acesso de qualidade aos meios informáticos indispensáveis. Mas num ponto todos estão de acordo: a experiência derrubou as barreiras mentais que muitos de nós, professores, tinham relativamente ao ensino à distância. Não só é possível, como é fácil e, muitas vezes, desejável. Uma transformação digital no ensino superior tornou-se, em poucos meses, vários anos mais próxima.

Mas, aquilo que foi inegavelmente um desenvolvimento bom, rapidamente se transformou em delírio. Passámos a ser bombardeados com a ideia (tonta) de que o pós-Covid traria um “novo-normal”, onde o teletrabalho e o ensino online seriam preponderantes. E, como em certos delírios, alguns começaram mesmo a alucinar, imaginando o domínio mundial das grandes marcas universitárias, como Harvard, Stanford, Chicago, MIT, Oxford ou Cambridge. Porquê estudar sociologia, gestão, física ou engenharia numa universidade portuguesa, quando será possível ter esses cursos on-line e mesmo, num futuro próximo, um grau de uma universidade do topo mundial? As modestas universidades locais limitar-se-iam, quanto muito, a fornecer aulas práticas e laboratoriais, mas sempre devidamente certificadas pelas autoridades académicas imperiais.

Este receio não é novo e campeou nas academias quando os primeiros MOOC (“Massive Open On line Course”) surgiram, pouco depois da viragem do século. Muitos previram então o fim do ensino dito tradicional, e investiram milhões para entrar numa corrida onde, diziam, os vencedores tudo arrecadariam. Hoje sabemos que as crónicas da morte do ensino presencial foram grandemente exageradas. A razão é muito simples.  Se alguma coisa a pandemia mostrou, é o quanto as pessoas valorizam a interação social e como estão dispostas a correr (e causar) riscos para socializarem. Paradoxalmente, o Covid e o confinamento enfraqueceram o caso em favor das versões mais extremas do ensino online.

É claro que ensino no futuro será diferente. Não por causa do Covid, mas porque o futuro é sempre diferente (mas raramente descontínua o passado). Essa diferença, estou em querer, residirá na adoção mais generalizada e rápida da tecnologia para maximizar a experiência de aprendizagem (o chamado Technology Enhanced Learning — TEL). Mas isto é a aprendizagem com tecnologia e não da aprendizagem via tecnologia. Uma transformação digital que já estava a ocorrer em muitas universidades portuguesas mesmo antes da crise.

Por tudo isto, não acho que a academia portuguesa se deva sentir ameaçada “pelo que aí vem”. A importância da experiência de socialização é uma ótima notícia quanto à capacidade de continuar a atrair estudantes internacionais. Por outro lado, a transformação digital necessária já está em curso pode ser acelerada com uma relativa modéstia de meios.