Foi há mais de meio século, no dia 28 de Junho de 1969, que Stonewall Inn, em Greenwich Village, se tornou um símbolo. Stonewall Inn era um bar, como muitos da zona, propriedade de mafiosos. Era frequentado por homossexuais pobres, dragqueens, transexuais, comunidades então marginalizadas e perseguidas.
Ao contrário de outras rusgas em boites e bares homossexuais, em que a polícia de Nova Iorque, em cumplicidade mafiosa, se entendia com os donos e os punha de sobreaviso, esta incursão policial aconteceu inesperadamente e numa noite de sexta-feira, com o bar cheio. Também por isso, houve resistência à polícia e às detenções que a polícia quis fazer.
Em consequência, houve, nos dias e semanas seguintes, manifestações da comunidade homossexual de Greenwich Village. É preciso lembrar que, nesse final dos anos 60, viviam-se, na sociedade americana, grandes tensões, com a luta pelos direitos civis dos negros, os protestos anti-Vietname e o ambiente pró-amor livre e de defesa das minorias sexuais.
Stonewall passou assim a ser um marco da luta pelos direitos civis de uma comunidade que até então se sentia discriminada, perseguida, ridicularizada, marginalizada. E o mês de Junho passou também a ser o mês do chamado Orgulho Gay.
Não se pode dizer que haja hoje, no mundo euroamericano, qualquer tipo de perseguição a estas minorias; pode até dizer-se que, talvez pela influência e poder adquiridos em sectores chave da formação da opinião – na Academia, nos Media, no mundo editorial – muitos terão passado do orgulho ao preconceito, ou de vítimas de preconceito a preconceituosos, eles mesmos, condenando prontamente toda e qualquer reserva perante a longa lista de opções sexuais não-tradicionais que hoje compõem o vasto movimento LGBTQIA+.
Sublinhe-se que isto se passa exclusivamente no mundo euroamericano de raiz judaico-cristã que evoluiu para o liberalismo laico dos séculos XIX e XX. No mundo do Islão e nas sociedades da África subsariana mais conservadoras o panorama é bem diferente. Há na Ásia, incluindo o Médio Oriente, 21 países com sanções penais ou legislações anti- homossexuais e 31 países africanos alinham na mesma discriminação. Mesmo assim, nos últimos 20 anos, o número de países com leis discriminatórias passou de 92 para 64.
No entanto, como noutras situações e circunstâncias históricas, as vítimas tendem a transformar-se em senhores. E hoje, em consequência do fenómeno humano da reversão de posições, os “desfiles Pride”, sempre em Junho, com a passagem das bandeiras com as cores do arco-íris e todo o espectáculo exótico do exibicionismo das várias categorias LGBT, assemelham-se mais a uma marcha vitoriosa sobre um povo vencido do que a uma revolta por direitos reivindicados.
Por isso, a proibição pelo governo húngaro da Marcha sobre Budapeste voltou a dar aos organizadores o que eles já quase davam por perdido: a perseguição, a proibição, logo, o martírio, mas um martírio suave, seguro, já que os perseguidores prometiam ser “civilizados”.
Como a lei húngara de 2021 proíbe, em nome da protecção de menores, “a exibição ou promoção da homossexualidade”, o presidente da Câmara de Budapeste, Gergely Karacsony, do partido “verde” da oposição, viu a janela política de oportunidade e decidiu promover na capital da Hungria o desfile do Orgulho Gay. Frau von der Leyen, a partir de Bruxelas, apressou-se a solidarizar-se com o evento, despachando 70 parlamentares europeus que marcharam ao lado de uns 150 mil participantes. Orban foi “civilizado”: não mandou a polícia para perturbar os festejos e a mesma polícia teve o cuidado de encaminhar por outro percurso uma contra-manifestação, certamente reaccionária.
Porém, este episódio húngaro vem a contra-corrente, ou seja, vem numa altura em que as coisas parecem estar a mudar, sobretudo depois da vitória de Trump nos Estados Unidos e o consequente “defunding” federal de muitas iniciativas pró-LGBT, pagas pelos contribuintes norte-americanos à revelia dos mesmos. Com o vento a mudar em Washington, muitos bancos e grandes companhias, envolvidas no apoio financeiro a estes projectos, estão a abandonar a causa ou as causas: segundo Garreth Roberts em “End of the Rainbow” (The Spectator, 31 de Maio) a Master Card, a Pepsi, a Nissan, a Price Waterhouse e a Deloitte, entre outras grandes companhias, deixaram de subsidiar eventos LGBT.
O que tem vindo a acontecer é que as propostas radicais do wokismo, claramente minoritárias e em choque com o pensamento e o sentido de realidade de maioria das pessoas, começaram a exasperar essa maioria e a minar as relações, as instituições, as próprias empresas. Ora as empresas, que vivem dos consumos do público, acharam agora por bem refrear os seus antigos ímpetos radicais. Vai nesse sentido o texto de Nathanael Meyerson, na CNN Business de 4 de Junho: 39% das empresas inquiridas prevêm baixar os seus planos de apoio ao Gay Pride e a iniciativas do género.
As marcas de consumo público não querem agora ofender a maioria dos seus clientes nem incorrer no desfavor da Administração Trump. E tal como, no passado, não querendo incorrer no desfavor da Administração Biden, se tinham juntado ao esforço nacional de endoutrinar os renitentes, arrepiam agora caminho. Já havia sinais de mudança: a Bud Light, uma cadeia de armazéns de roupa ligada à promoção de fatos de banho trans, já se vinha a confrontar com um progressivo decréscimo de vendas; outra companhia, a Target, embora mantendo produtos Pride, já tinha passado a vendê-los só em “armazéns selecionados” ou apenas online.
Do outro lado do Atlântico, no Reino Unido, também o Supremo Tribunal veio pôr termo às dúvidas sobre “o que é um homem” e “o que é uma mulher”, decidindo por unanimidade que, para os propósitos da Equality Act, “o sexo é biológico”.
Para Andrew Sullivan, em “How the Gay Rights Movement Radicalized and Lost its Way”, (The New York Time, 26-6-2025) é a radicalização e o seu quase endossamento oficial que estão na base da crise. Sullivan é católico e assumidamente homossexual; um “republicano” que o “conservadorismo social” ou a agenda conservadora nos costumes dos republicanos afastaram do republicanismo. Para ele, o problema do movimento LGBTQ+ é o facto de ter passado do clamor inicial por igualdade e tolerância à “exigência de uma completa mudança social”. Foi, para Sullivan, essa radicalidade ideológica que traiu e comprometeu os objectivos iniciais do movimento, catapultando-o de uma justa reivindicação de direitos para uma pretensa hegemonia moral com reflexos e práticas de autoritarismo asfixiante.
Do orgulho ao preconceito, diríamos.