Estamos mais velhos, ano após ano apresentamos um saldo natural negativo, com mais óbitos e menos nascimentos, onde apenas o saldo migratório tem permitido um equilíbrio deste declínio natural.
Ao longo dos últimos 10 anos, o Serviço Nacional de Saúde tem recebido reforços substanciais do Orçamento de Estado, sem ganhos mensuráveis tangíveis, de acordo com o relatório publicado na Health at a Glance: Europe 2024, onde se constata que apenas 42% das pessoas com doenças crónicas relatam boa saúde geral, comparando com a média da OCDE de 66%, mas o indicador que mais me chamou a atenção, foi que a mortalidade por causas preveníveis é de 19%, enquanto a média europeia é de14%.
Todas as semanas os telejornais reportam Serviços de Urgência fechados, enquanto exerci como Enfermeiro Responsável de um Serviço de Urgência Geral, várias vezes referia junto dos elementos mais novos que “Winter is Coming”, se por um lado este lema o recorda de uma famosa série de televisão, a verdade é que diariamente os profissionais de saúde que trabalham num Serviço de Urgência se debatem com esta necessidade constante de se prepararem para tempos difíceis.
E eu diariamente os recordava disso:
O Inverno está a chegar.
Ao longo de muitos anos as Urgências sofriam de ciclos, com um agravamento do número de admissões e internamentos a ter um pico nos meses mais frios. Mas a verdade é que os dados mostram que esses picos sazonais começam a ser cada vez menos marcados, os nossos Serviços de Urgência estão cada vez mais a caminhar para um longo inverno…
Um Serviço de Urgência deve ser visto como uma barragem, se a montante temos a comunidade, a jusante, os serviços de internamento, as unidades de cuidados intensivos, os blocos operatórios, ou o regresso à comunidade. Explico, o fluxo, o circuito de um doente num hospital deve ser constante e em movimento, com os tempos de permanência no Serviço de Urgência serem apenas o estritamente necessário para a estabilização e/ou encaminhamento certo para o doente. Infelizmente os tempos médios de internamento nos nossos Serviços de Urgência têm aumentado anos após ano…
Os diferentes governos têm apostado cada vez mais num modelo centralizado no Hospital, veja-se o modelo Unidades Locais de Saúde, reforçando cada vez mais as tais barragens, contudo confrontam-se cada vez mais com uma dificuldade, a gestão das altas, a garantia que conseguimos manter o fluxo constante, e aí a resposta está cada vez mais na comunidade.
Se a nossa população está cada vez mais velha, se vivemos cada vez mais até mais tarde (a nossa esperança média de vida está já nos 83 anos), por inerência temos cada vez mais uma população com mais doença crónica, com maior dependência e necessidades, não podemos continuar a usar os mesmos modelos de gestão em Saúde, os modelos de Hospitalização domiciliária são um bom exemplo de como o Sistema tem de evoluir e se adaptar.
À data que vos escrevo estão 2342 pessoas internadas por motivos sociais, um aumento de 8% face ao ano passado. Um número que nos deve preocupar enquanto Sociedade, a nossa incapacidade de garantir acesso aos nossos idosos a locais de habitação condignos com condições e acessos a cuidados.
Diariamente enquanto enfermeiro de emergência médica, sou ativado para situações de emergência em locais que são autênticos depósitos de pessoas. E se de forma constante olhamos para as estruturas residenciais de pessoas idosas, para os nossos lares, como um problema a jusante dos nossos hospitais, ou seja como um problema de capacidade de escoamento do fluxo de doentes dos hospitais, o que hoje vos peço é que olhemos para o prisma por outra face, bem a montante.
Se Portugal, se o nosso Sistema de Saúde tiver a capacidade de olhar para o Todo como um Todo, depressa ficará claro que a resposta mais eficaz para alívio da pressão sobre os Serviços de Urgência e sobre os Hospitais é a intervenção e investimento na Comunidade.
Defende-se que o acesso ao Serviço Nacional de Saúde deve ser feito via linha Saúde 24, muito na tentativa de reduzir o fluxo de pessoas com patologia minor para os Serviços de Urgência.
Mas e os nossos idosos? E as tais pessoas idosas, com múltiplas patologias crónicas? Como intervir junto desta faixa?
Se por um lado sabemos que apenas existe em Portugal capacidade instalada para cerca de 100 000 pessoas em instituições, por outro lado sabemos que as médias de ocupação são superiores a 95%, o que dificulta o acesso a muitos a estas instituições…
A reflexão urge de como podemos melhorar os cuidados e o acompanhamento a esta faixa da população, que por inerência é das principais utilizadoras de recursos do nosso Serviço Nacional de Saúde. Medidas claras como a obrigatoriedade de cuidados de enfermagem em permanência em todas as estruturas residenciais para idosos, medidas como a mimetização de modelos de hospitalização domiciliária nestas mesmas estruturas, com uma triagem e avaliação clínica prévia do encaminhamento desta pessoa para um serviço de urgência, medidas como a aposta contínua em serviços de apoio para os idosos na Comunidade, de forma a que estes se possam manter o maior tempo possível ativos e nos seus domicílios, medidas como o acesso garantido à medicação crónica, medidas como o acesso real a uma verdadeira rede de cuidados de saúde primários.
Sejamos capazes de enquanto País de implementar verdadeiras medidas de impacto na Saúde, sejamos capazes de empoderar a nossa população, de a educar em literacia para a Saúde e acima de tudo perceber, talvez a melhor expressão seja, aceitar, que a maioria das respostas aos nossos reais problemas de Saúde reside mais uma vez, onde tudo começa, na Comunidade…