René Descartes tinha um hábito pouco comum: passava longas manhãs no quarto, a deixar os seus  pensamentos vaguear. Foi precisamente durante estes períodos que desenvolveu algumas das ideias mais influentes para a filosofia ocidental. É tentador pensar como as coisas seriam diferentes se ele  tivesse nascido quatro séculos mais tarde.

Imagine-se a cena: Descartes está deitado, a duvidar da existência do mundo exterior, e chega até  “Dubito ergo cogito” (duvido, logo penso). Nesse momento, o seu telemóvel liga-se com uma  notificação (Descartes não tinha um telemóvel, mas concedam-me este anacronismo). Ele pega no  telemóvel, distrai-se, e não chega a “Cogito ergo sum” (Penso, logo existo).

A ironia é que aquilo que hoje chamaríamos improdutividade era, provavelmente, a parte mais  produtiva do seu dia. Descartes tinha algo cada vez mais raro: tempo em que a sua mente não estava  a ser conduzida por estímulos exteriores.

Muito se tem escrito sobre o declínio daquilo a que o sociólogo Ray Oldenburg chamou o “terceiro  espaço”: cafés, bares, bibliotecas, os lugares entre a casa e o trabalho onde a vida social costumava  acontecer. O seu desaparecimento é preocupante por estar diretamente associado com o aumento  da solidão e a erosão da comunidade.

Mas há outro espaço que está silenciosamente a ser erodido ao mesmo tempo. Chamemos-lhe o  “espaço zero”. É o tempo em que nada, vindo do exterior, reclama a nossa atenção. Convém  esclarecer que isto não diz apenas respeito aos telemóveis ou social media. O trabalho preenche o  silêncio com a mesma eficiência. A solidão não conta se estivermos ocupados. Estar sozinho com um  telemóvel, uma folha de cálculo ou um podcast de desenvolvimento pessoal não é o espaço zero.

Durante a maior parte da história da humanidade, estes momentos de solidão e reflexão eram  inevitáveis, sobretudo porque, pura e simplesmente, não havia mais nada para fazer. Esperar pelo  autocarro significava olhar para a rua, porque a alternativa era olhar para coisa nenhuma. Uma  viagem de comboio significava ficar a olhar pela janela. Esse tédio, genuinamente desconfortável e  historicamente pouco apreciado, desempenhava uma função útil: deixava a mente sozinha consigo  própria e criava espaço para o diálogo interno de onde tantas ideias nascem.

Hoje conseguimos praticamente erradicar o tédio. A fila do supermercado tornou-se uma  oportunidade para ir ao telemóvel. Uma corrida matinal é invariavelmente acompanhada por um  podcast. Os últimos minutos antes de adormecer (e, em boa verdade, os primeiros depois de  acordar) ficam reservados para mais uma passagem pela panóplia de redes sociais.

O diálogo interno e a reflexão são os processos através do quais as experiência se transformam em  compreensão e observações dispersas se transformam em ideias. Se saltarmos esse passo vezes  suficientes, tornamo-nos extremamente eficientes a consumir informação, mas piores a fazer algo de  útil com todo este conhecimento adicional.

Parece-me que este desaparecimento de diálogo interno pode ser mais importante do que  imaginamos, porque um número elevado de extraordinários escritores, cientistas e artistas relatam,  de forma consistente, que os seus momentos de maior clareza apareceram durante caminhadas,  viagens de comboio ou até no duche. Veja-se, por exemplo, a famosa frase de Agatha Christie, “A  melhor altura para planear um livro é enquanto lavas os pratos”.

Os economistas usam a expressão “Einsteins perdidos” para descrever pessoas talentosas cujas  contribuições nunca chegaram a existir porque lhes faltaram as oportunidades necessárias para  desenvolver o seu potencial (por exemplo, uma criança brilhante sem acesso a educação). Talvez  exista uma categoria mais discreta ao lado desta: a dos “Descartes perdidos”: pessoas que não têm tempo ininterrupto para deixar uma ideia amadurecer e cristalizar; pessoas presas para sempre em  dubito ergo cogito (duvido, logo penso), sem nunca chegarem a cogito ergo sum (penso, logo existo).

Ao contrário com o que acontece com o desaparecimento do “terceiro espaço” – que deixa claros  vestígios (um centro comunitário encerrado tem uma placa de “vende-se”, um café fechado tem as  portas trancadas) – o “espaço zero” desaparece sem deixar rasto, uma interrupção conveniente de  cada vez. Ninguém escreve um relatório sobre o livro que nunca foi escrito, a empresa que nunca foi  imaginada ou o quadro que nunca foi pintado, porque não há nada para documentar.

Claro que nada disto é um apelo para atirar o telemóvel ao rio e redescobrir o prazer de ficar a olhar  para uma parede. No mundo moderno em que vivemos, o entretenimento é essencial. O pedido é  mais modesto: proteger melhor alguns momentos em que, aparentemente, nada está a acontecer,  porque pode ser precisamente aí que uma ideia importante nasce.