Rádio Observador

Crónica

Os mortos dos outros

Autor

Quando se alcança que não foi senão “isso”que fez a essencialidade constitutiva de alguém que partiu há que trazê-lo de volta. Fazendo dele um morto de todos, em vez de apenas nosso. Meu.

1. Que interessam os mortos dos outros? Nada. São deles. A morte é uma rotina, segue a sua vidinha, para cada um os seus mortos. Os dos outros são anónimos, os nossos têm rosto e voz, sabemos-lhe de cor o jeito e a vida, dizem-nos visceralmente respeito. Mas ás vezes, não muitas vezes, há mortos que subitamente decidimos que, como dizer? mereceriam – eu ia a dizer que mereceriam obrigatoriamente – a partilha. Capturados pela pressa e a espuma dos dias, distraídos ou exaustos, eis-nos – os que ficamos – na repentina condição de implicados nesse dever de partilha: uma espécie de obrigação de voltar a buscar quem viveu, ampliando-lhe o reduto – familiar e social – onde exclusivamente moraram para projectar o seu legado. Anunciando aos quatro ventos esse sopro, esse impulso, um indefinível traço de qualquer coisa que eles transportavam e descobrimos que nos ultrapassa. Uma abnegação, um rasgo, uma procura que descobrimos ter havido e cuja notícia nos apanhou miseravelmente desprevenidos no trajecto da lágrima que choramos, na curva da irremediável ausência. E na solidão dessa descoberta.

2. Não falo (obviamente) dos mortos das honrarias e dos obituários, os mortos “conhecidos”, falo dos outros, mais anónimos ou menos anónimos. Evocando em particular os portadores desse “algo mais” que apesar de difícil definição, nos apercebemos ter-lhes afinal guiado a vida, ocupando-a prioritariamente. Uma espécie de perseguição do bem. Um despojado dom de si. Uma reservada mas permanente generosidade. Uma pródiga bondade para o “outro”.

Não é para todos. Mas quando se alcança que não foi senão “isso” que fez a essencialidade constitutiva de alguém que deixou de estar connosco, há que trazê-lo de volta. Fazendo dele um morto de todos, em vez de apenas nosso. Meu.

3. Foi há oito dias que morreu e era uma amiga de infância, das que se contam pelos dedos de uma mão. Sabíamos que era deliciosamente fantasista, imaginativa, imprevisível, sonhadora, desenhando e cozendo almofadas com uma filha – a outra é actriz –, pintando paredes, cortando madeiras – quase fez a sua casa com as mãos –, percorrendo incansavelmente o belo campo fora de portas onde vivia e que ela amava sobre todas as coisas. Como amou os quatro filhos, ou como serviu Deus e neste tripé assentou ela a vida enquanto a teve. Fazendo do tripé a raiz, o porto de abrigo mas também a bússola. A fantasia porém reclamava-a e reclamava-lhe mais: a realidade algumas das vezes – muitas vezes? – não lhe chegava, era preciso dançar uma valsa com o sonho e foi assim que privei de perto com os personagens que ela inventava de modo inteiramente sério. A sua imaginação polifacetada tornava-os tão seus e tão de carne e osso, que com eles tudo dividia, vida, ilusão, amores e desamores, falando-nos deles como se estivessem para entrar e sentar-se à nossa mesa connosco no minuto seguinte.

Andava a pensar escrever com um irmão a história de uma saga familiar e entretinha-se com pesquisas e “papéis” e livros mas sobretudo entretinha-se com a ternura que esbanjava: fazendo da sua casa cor de rosa estampada no verde das árvores já antigas, um centro irradiador de vida e nela acolhendo com grata alegria quem vinha ou quem passava.

Mas isto nós sabíamos. Também sabíamos que era uma mulher íntegra e decente. E cumpridora e patriota, tinha Portugal na pele e no peito. Por isso não estranhámos a inteira sintonia entre os “testemunhos” ouvidos há dias numa minúscula capela de pedra – com centenas de pessoas acotovelando-se lá fora, ao ar frio do dia ou da noite – e a sua forma de ter sido e de ter estado no mundo, “amando mais a luz do que as trevas”.

Sim, a sintonia entre as palavras que ouvíamos e a memória que guardávamos era perfeita, sim achávamos que sabíamos. E no entanto… como dizer? talvez não soubéssemos afinal tão bem como isso. Não soubéssemos por completo e por inteiro. Foi quando uma sobrinha testemunhou o que aqui deixo. Não o faço pela minha amiga que partiu mas pelos que ficaram. Quem se seduz com o desafio da vida eterna encontrará nestas poucas linhas uma das mais fecundas interpretação da letra e do espirito do Evangelho e quem nela descrê, um luminoso exemplo do dom de si levado ao limite (e o que é a protagonização do “amor puro” senão a falta de limites? )

4. Eis o testemunho: “No final da década de oitenta, um amigo conhecido de todos na nossa família, foi diagnosticado com o vírus da sida, num hospital de Bruxelas. Nessa altura os modos de propagação do vírus eram ainda incertos. Tão incertos e assustadores que o corpo médico, temendo pelo seu próprio contágio, deixou o doente acamado, sem sequer os cuidados básicos de higiene. A minha tia viajou para Bruxelas para cuidar do seu amigo e devolver-lhe a sua dignidade. Sem medo, tocou na sua pele, deu-lhe banho, deu-lhe de comer, acompanhou-o nos últimos dias da sua vida. Esta era a imagem da minha tia (embora haja tantas outras) que eu quero aqui partilhar e levar comigo porque nela consigo cruzar o destino duma mulher com a História do mundo, num gesto de infinita compaixão.”

5. Esta minha amiga chamava-se Ana Filipa Pinheiro Espírito Santo. Era filha de pais justos e cumpridores, irmã de muitos irmãos, neta do Conde de Arnoso, um invencido “Vencido da Vida”. O que nunca saberemos é se ela nasceu “assim”, se foi facetada pelo ambiente familiar em que cresceu, se escolheu para si a aventura de uma experiência íntima da fé. Sabemos o que interessa: foi seguidora e discípula de Teresa de Calcutá e de Francisco, de Roma.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

O Verão /premium

Maria João Avillez

Quando as coisas “impossíveis” acontecem é como um certificado: sabemos que podem acontecer e por isso, voltar a acontecer. O desconsolo é maior que o consolo.

Política

E é isto /premium

Maria João Avillez

Nenhuma democracia resiste a funcionar só pela metade. Mas cerzir o profundíssimo rasgão no tecido político e partidário da outra metade irá demorar anos.

Crónica

Museológica da batata /premium

Tiago Dores

Somos um povo com inclinação para a filosofia, com dotes de abstracção tão bons, tão bons, que acabamos por ser mais fortes a discorrer sobre museus imaginários do que a visitar museus reais.

Crónica

O Verão /premium

Maria João Avillez

Quando as coisas “impossíveis” acontecem é como um certificado: sabemos que podem acontecer e por isso, voltar a acontecer. O desconsolo é maior que o consolo.

Política

A rentrée dos artistas /premium

Luís Reis
651

O PS oferece-nos os piores serviços públicos de sempre a troco de um crescimento anémico e da maior carga fiscal de todos os tempos. E proclama que este é o melhor dos mundos e assim devemos continuar

Crónica

Onde é que há gente no mundo? /premium

Paulo Tunhas

Abre-se um jornal ou vê-se uma televisão e só nos deparamos com doses cavalares de virtude a crédito que clama por integral satisfação e danação eterna dos que escapam à sua jurisdição.

Crónica

I love Portugal /premium

Alberto Gonçalves
2.410

Os portugueses lúcidos, coitados, padecem da esperança de que os portugueses restantes acordem para as delícias da liberdade. Sucede que para os simplórios a liberdade não é deliciosa: é uma ameaça.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)