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Jonathan Haidt e Greg Lukianoff, no seu The Coddling of the American Mind (2018) identificaram três fases da evolução da humanidade, três ordens morais da sociedade humana, desde os seus primórdios até à actualidade.

A primeira fase da moralidade, que acompanhou os humanos desde que estes se vêem como tal e que chegou até aos tempos modernos, designam como cultura da honra”. Numa cultura da honra, a reputação dos homens, e da família patriarcal dominada por homens, era o valor social máximo, a ser defendido a todo o custo. O mínimo insulto, o menor desrespeito, real ou percepcionado, recente ou antigo, era tipicamente resolvido por via da violência — duelos, guerras, execuções, vendettas, tortura, violações. Nessa ordem social, as mulheres, além de não serem tidas como cidadãs de pleno direito, eram os símbolos totémicos da honra da família e a sua virtude era guardada e mercadejada” por via de casamentos de conveniência. O filho sem pai, a mulher desonrada, a família desgraçada, eram relegados para a base da pirâmide hierárquica e lá poderiam permanecer por décadas ou séculos. Sem honra, sem estatuto.

A segunda fase caracterizou-se pela emergência da cultura da dignidade”, onde todos têm o direito a serem vistos e tratados com absoluto respeito pela sua pessoa, como fins em si mesmos”, independentemente de qualquer característica pessoal e (acima de tudo) independentemente das suas preferências e opiniões. Toda e qualquer pessoa é uma Pessoa de pleno direito. A violência e a coerção deixaram de ser vistas como uma forma aceitável de manter a ordem social – que passa a estar baseada na Dignidade individual – e os indivíduos têm que encontrar soluções pacíficas para resolver as suas divergências. Na cultura da dignidade é exigido a cada criança, futuro adulto, que desenvolva a capacidade de encaixe” suficiente para enfrentar os desrespeitos, as descortesias, as desconsiderações dos seus pares, com maturidade, como uma oportunidade de crescimento individual. Afirma-se a anti-fragilidade”: Sticks and stones may break my bones, but words will never hurt me”, O que não nos mata torna-nos mais fortes”. Enquanto a ofensa à honra era vingada com recurso à violência, a Dignidade, que é inerente ao, e inalienável do, indivíduo, perde-se agora não com a ofensa em si mesma, mas sim com uma resposta exaltada, desproporcionada e irracional do ofendido.

Vivemos actualmente tempos particularmente tristes e estúpidos. Pois a cultura da dignidade, corolário máximo do nosso acervo cultural greco-latino, judaico-cristão, do Iluminismo, do Liberalismo e dos Horrores do Séc. XX, tem vindo a perder terreno para uma nova cultura da vitimização”, identificada por Haidt e Lukianoff como a terceira fase da evolução humana. À Honra, que era o sinal dos poderosos, e à Dignidade, que é (foi?) o pináculo da Civilização, sucedeu a Vítima como o lugar social mais ambicionado.

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@s noss@s crianç@s” e Xs nossXs adultXs” anseiam mais por serem vítimas aos olhos da sociedade do que por serem representações da Dignidade (da sua e da dos demais). Caso pertençam aos grupos identitários errados, anseiam por serem paladin#s, justiceir#s, aliad#s d#s vítim#s”.

O oprimido foi elevado ao vértice da pirâmide social. Simultaneamente, a Vítima (real ou postiça) tornou-se uma arma nas mãos daqueles que desejam alcançar o poder para destruir a organização familiar e social. E assim, as mulheres, os homossexuais e outras minorias sexuais, os negros passam a ser os sujeitos favoritos dos activistas — os activistas, arautos de causas superiores de coisa nenhuma, que nenhum valor acrescentam ao ser humano e à sua vida em sociedade.

Quem ganha? Só os activistas e quem os lidera ganham alguma coisa. As vítimas não ganham nada. Pois que, se ganhassem, deixariam de ser vítimas e os activistas perderiam a sua razão de ser.

Toda esta temática me entristece. Me aborrece de morte. Porque as guerras culturais que se abrem e iniciam a pretexto da protecção das vítimas não pretendem alcançar lugares melhores ou resolver problema algum dessas putativas vítimas. Pretendem apenas criar divisionismos cerrados, dividir para reinar, criar facções, irritações, comichões que se tornarão infecções sociais. Farão crescer problemas que não existem. Criarão racismo onde ele não está, farão ver homofobias onde estas nunca foram sequer sentidas, e sublinharão a fragilidade” feminina mas como uma carência que merece ser protegida da ofensa. Ofensa que existe em qualquer lado que o activista a quiser detectar. Entrámos sem nos apercebermos numa espiral de confusão onde prevalecerá o medo da opinião, do pensamento próprio, com medo da ofensa às vítimas — as verdadeiras soberanas.

Catarina Maia desmistificou aqui exemplarmente a falsa vitimização da mulher. Os feminismos de 3.ª e 4.ª vagas, os feminismos liberais, os feminismos marxistas, e os feminismos radicais que pugnam pela destruição dos valores conquistados pelo suor e sangue de verdadeiras heroínas já não têm espaço nem razão de ser. Não em Portugal ou na Europa, onde a lei e o Estado já não discriminam em razão do sexo.

Mulheres vítimas, verdadeiramente vítimas, atrozmente vítimas, existem por esse Mundo fora, incluindo em Portugal. Mas não merecem nem uma nota de rodapé das nossas paladinas do feminismo, preocupadas que estão com glass ceilings”, com wage gaps”, e com lugares em conselhos de administração. Se as verdadeiras vítimas recebessem essa nota de rodapé, a construção da causa feminista” cairia como um baralho de cartas. Dá jeito, porém, ser simultaneamente vítima e campeã das vítimas. Dá muito jeito.

Alinhar na armadilha da vitimização é não perceber a enorme perversão que se faz da Dignidade, do Respeito pelo indivíduo, da Responsabilidade. Quando a mulher consente em ser reduzida, ver a sua definição encostada ao conceito de vítima, perde a essência de si mesma para ser nada mais do que uma pedra de ataque. E perde a sua dignidade.

A cultura da vitimização vai tão longe e o investimento nessa cultura é tão grande, que a razão já não mora com os seus feitores. Alteram-se normas sociais, altera-se a linguagem e a gramática em ginásticas impensáveis e proferem-se sentenças de cancelamento para aqueles (e aquelas) que ousam pensar pelas suas próprias cabeças. Acaba-se aos poucos com as liberdades de pensamento e de expressão. Verbo de ofensa e de insulto. Como ousam?

Que me perdoem os que discordam, mas eu não me submeto a esses ditames. Não posso adoptar ideias que entendo muito bem, mas com as quais não concordo, que me revoltam. Eu não sou vítima e não quero viver num mundo feito de vítimas, de aliados, e de perpetradores. Há três coisas essenciais das quais eu não abdico: Dignidade. Dignidade. E Dignidade.