Poderemos chamar optimismo cego ao ato de tentar procurar as nossas chaves de casa num lugar onde não as perdermos apenas por acreditarmos que ali as condições de luminosidade são melhores? Ou antes uma forma de ignorar o pessimismo e a realidade de podermos nunca mais as encontrar?

Reza a lenda que a história é mais ou menos assim:

Um homem anda às voltas à procura de alguma coisa por baixo de um candeeiro de rua. Os vizinhos perguntam-lhe “Do que está à procura?”. Ele diz “Das minhas chaves”. Todos o ajudam sem hesitar e passam muito tempo a examinar o chão em volta do candeeiro. Ao fim de algum tempo, alguém decide perguntar “Mas onde é que você perdeu as chaves?”. O homem responde “Em minha casa”. “Então porque é que está a procurá-las aqui?”. “Porque há mais luz!”.

Esta história popular sufista, cuja origem se atribui a Nasrudim, um filósofo e sábio do século XII, perseguiu-me em dois momentos distintos. A primeira vez que a li foi quando tinha cerca de 8 anos, num livro de anedotas para crianças. A última vez foi apenas há poucos dias, no livro Quando o corpo diz não, do médico e conhecido pensador Gabor Maté.

Na vida adulta, esta história popular ganha outra dimensão e Maté utiliza-a para ilustrar como nos esquecemos tantas vezes de procurar soluções em lugares que até nos podem ser hostis e como somos antes impelidos a procurar as respostas em sítios familiares e que não nos causam qualquer tipo de incómodo. Até podemos acabar por encontrar respostas, mas talvez não aquelas de que verdadeiramente precisávamos.

Gabor Maté reflete sobre o pessimismo e o optimismo humanos a partir de uma abordagem que tem tanto de filosófico como de científico. Que lentes devemos escolher para olhar para a vida? É espantoso que décadas de acompanhamento de doentes em cuidados paliativos tenham demonstrado que os pacientes com maior risco de desenvolver doenças graves eram aqueles que tinham padrões de pensamento felizes e menos perturbados, e que descreviam as suas infâncias como muito felizes e os pais como super-heróis. Isto não quer dizer que o remédio para a saúde sejam a angústia e a dor, nem que as pessoas satisfeitas com a sua vida tenham mais probabilidade de desenvolver cancros! Quer antes dizer que a negação do que realmente vivemos e do que sentimos sobre o que aconteceu tem implicações muito negativas na nossa saúde a nível global.

Não conseguir sentir ou expressar a raiva, a angústia, a dor e a tristeza tem tanto impacto como não conseguir sentir as coisas positivas que nos acontecem. Há muitas pessoas que nunca pensaram verdadeiramente sobre aquilo que viveram e que embelezam as suas infâncias, mesmo que tudo tenha sido longe de perfeito. O que os novos estudos e décadas de observação têm vindo a revelar é que não há vantagens em reprimir, esquecer ou não pensar sobre aquilo que nos magoou. Apenas perpetua uma dor que acreditamos que não existe por não a vermos, mas à qual o nosso corpo e mente, no seu binómio inseparável, continuam a dar guarida. E essa guarida indefinida não expulsa o inquilino, mesmo que ele pareça silencioso e que não cause distúrbios. A realidade é que, quando as pessoas encontram um espaço onde podem falar sobre o que lhes aconteceu, as memórias separam-se dessas lentes cor de rosa e de repente algumas das pessoas mais aparentemente felizes tiveram as infâncias mais traumatizantes que se possam imaginar.

Neste livro, Gabor Maté dá a um dos capítulos o nome de “Dança das Gerações” e é nele que fala sobre aquilo que poderia até ser uma “maldição emocional das famílias”. Sabe-se que o stress e o comportamento parental tendem a transmitir-se nas gerações seguintes de uma família. Há estudos fascinantes, como um realizado com macacos Rhesus (Marmot e Brunner, 2001), onde “as fêmeas adoptaram no futuro o estilo maternal típico das suas mães especialmente carinhosas”, e ainda um outro estudo com ratos adultos (Caldij, 1998), que permitiu concluir que aqueles que tinham sido “mais lambidos e cuidados pelas mães” apresentavam uma “amígdala com muitos mais receptores de benzodiazepinas”. Isto é verdadeiramente incrível, porque a nossa amígdala, uma estrutura cerebral altamente implicada nas respostas emocionais do medo e da ansiedade, apresenta receptores naturais de benzodiazepinas, o que quer dizer que, quando ativados, nos sentimos mais calmos e tranquilos. Isto quer dizer que as experiências precoces de cuidados parentais influenciam a nossa própria fisiologia cerebral, que, por sua vez, vai influenciar a forma como conseguimos regular a nossa ansiedade durante toda a vida.

Ao longo do livro, Gabor Maté vai dando a entender, com humor, que não pretende que estes factos e reflexões sejam uma “condenação” emocional às famílias e a gerações de trauma familiar, mas sim uma forma de procurar a cura face a sistemas desajustados, raramente detidos para serem verdadeiramente pensados.

A metáfora mais cliché talvez seja a de que nas nossas vidas nunca há um sinal de STOP obrigatório para nada. Mas bem que devia.

E como os livros têm uma forma única de falar sobre tudo o que passa nas nossas vidas, termino com esta fala de uma personagem de Clarice Lispector:

“- Eu acho que no fundo todos os homens e mulheres vivem dizendo: não quero pensar nisso. E pensando que não pensaram, hem? que acha?”.