É possível viver sem que ninguém note? Estaremos cada vez mais fascinados com a ideia de existir com espectador ou sempre fomos assim? Faremos tudo apenas para que olhem para nós? E faríamos tudo isto se não estivéssemos a ser vistos? São perguntas demasiado difíceis, mas é possível que vivamos com a ideia de que são na verdade muito fáceis de responder. Ou, ainda, que nunca pensámos nelas, nem queremos pensar. Assumimos essa arte de não pensar como uma força, como se esse afastamento pudesse vir a salvar-nos de encararmos perguntas como: que significado teve a minha vida?

Sempre partilhámos com os outros pedaços escolhidos da nossa vida, sempre recortámos aquilo que queríamos mostrar. Por vezes, somos apanhados em deslizes, contratempos que não conseguimos prever e, contra a nossa vontade, os outros assistem a partes da nossa vida que não queríamos partilhar. Viver em modo de palco é desde logo um engano, tanto para o protagonista como para o espectador.

O protagonista mostra o que quer, corta a sua vida em retalhos e apresenta-a da forma mais proveitosa, constrói um ego baseado em evidências que o espectador não possui nem vai possuir, inventa para os outros factos que podem nem ser verdade para o próprio, mas que importa se não são confirmáveis pelo público? Já o espectador pode ser um objecto frágil em cativeiro, enganado pelas percepções que o protagonista consegue criar em mente alheia. Mas nem sempre é tão indefeso. Por vezes, o espectador é astuto, não dá ao protagonista o valor que este crê ter nas suas mãos. O espectador é ludibriado, mas também pode ludibriar. Quando o ego do protagonista está assente no falso amor do espectador, há vaidades que não se sustentam e a vida pode esvaziar-se de sentido muito rapidamente.

Não quer isto dizer que o espectador não corra riscos também. Acreditar cegamente no protagonista pode dar uma falsa sensação de segurança, um aconchego, a percepção de que o protagonista é um semelhante que espelha a nossa vida. Por outro lado, o espectador pode desenvolver amargura e raiva em relação ao protagonista, e esses sentimentos tornam-se parasitas e entraves à vida do próprio espectador. A vida do protagonista parece sempre mais repleta de significados e nem sempre o espectador consegue acompanhar a efabulação que o protagonista criou para a sua vida. Mas quando o espectador consegue relembrar-se de que a vida do protagonista são apenas recortes das melhores partes (por vezes efabuladas), o protagonista perde autoridade e perde o poder de influenciar a vida do espectador.

Quem são os protagonistas na nossa vida? Serão os políticos, as vedetas das redes sociais, os analistas, os pivots dos canais de notícias e dos concursos televisivos? Serão pessoas distantes cuja imagem é esse recorte que nada significa e às quais damos o poder de delinear rotas para a nossa vida? Ou serão os protagonistas aqueles com quem temos relações próximas, intensas, ardentes, amargas? Serão os nossos pais, o nosso marido/mulher, a nossa sogra, os nossos irmãos, o nosso chefe? Serão as pessoas que nos irritam? As pessoas a quem, sem dar por ela, damos o poder de definir a forma como passamos os dias? Seremos nós próprios o protagonista? Teremos habilidade, engenho e força para combater a necessidade de protagonismo quando ela é fatal, ou para combater a posição de espectador quando ela nos imobiliza?

Perder o rumo é mais do que possível no meio de tantos protagonistas e de tantos espectadores. Mas o que acontece ao protagonista quando perde a sua importância? O que é dele quando o espectador, seja na televisão, no telejornal ou nas redes sociais já não quer saber o que ele pensa, o que come, em quem vota, o que veste, o que diz, onde passa férias nem como educa os filhos?

Quando o protagonista perde a importância, o espectador (porque todos somos um pouco de um e de outro) toma as rédeas da sua vida e todos os egos que o rodeiam se transformam numa catadupa de seres humanos que perderam a perspectiva e que já só sabem viver para ser vistos e, vai-se a ver, já não veem nada à sua volta.

“— Como o vaga lume é para a gente… Sem ninguém saber como se é, se está aparecendo ou desaparecendo, sem ninguém adivinhar, mas pensa que a gente não vive enquanto isso? Vive, tendo história e tudo como o vaga-lume.” – Citação do livro O Lustre, de Clarice Lispector.