O Álbum das glórias foi editado em três séries por Raphael Bordallo Pinheiro (1846-1905), o melhor caricaturista português. As duas primeiras séries, entre 1880 e 1885 faziam parte da revista O António Maria, quase sempre como separatas coleccionáveis. Nesse ano a revista acabou, “em sinal de luto” pela liberdade de imprensa (o desgosto teria já passado em 1891, quando voltou a publicar-se). Anos depois, em 1902, apareceram os três últimos fascículos, anunciados como “de casa e pucarinho” com a revista A Paródia. As capas podiam comprar-se à parte, e havia assinaturas.
Ao longo das várias incarnações do Álbum foram publicados quarenta e dois fascículos, cada um com uma caricatura, uma legenda e um ensaio curto, assinado com um pseudónimo. O autor desses ensaios começou por ser o subestimado Guilherme de Azevedo (1839-1882) e depois o sobrestimado Ramalho Ortigão (1836-1915). Também colaboraram no Álbum outros escritores, ainda mais merecidamente esquecidos.
O assunto do Álbum é o Portugal contemporâneo: uma série de homens que se conheciam entre si, e cujas imagens podiam ser reconhecidas por leitores. Nem todos tinham feito ainda as coisas por que são principalmente lembrados. Eça de Queiroz aparece antes de Os Maias, como “o primeiro Cônsul;” e o Rei D. Carlos antes de ser rei, como “um elegante.” As excepções são mulheres, que esses homens poderiam também ter conhecido fora de casa (uma escritora, uma cantora e uma actriz), e os quatro motivos perenes de orgulho nacional: Camões, a Constituição, o Povo e a Universidade.
Os ensaios têm uma qualidade incerta. Um dos melhores é da autoria do próprio desenhador. O assunto é o Infante D. Augusto, um irmão discreto do Rei. A caricatura esplêndida, que excede a esquadria da página e que um crítico comparou acertadamente à imagem de um canguru, tem como legenda a longa teoria de nomes próprios do Príncipe; mas o ensaio de vinte e três linhas que a acompanha é taciturno, e tem vinte e uma linhas em branco.
O Álbum das glórias é em geral vingativo. Um fascículo foi apreendido a pedido do caricaturado, “um republicano impaciente” a quem tinham chamado “o verdadeiro magro.” Trata com desprezo e método ministros e governadores civis que tinham impedido a expressão e a circulação dos vários autores ou dos seus amigos; mas faz também troça mansa de um jornalista preso que nunca tinha sido bom jornalista.
Tal como o Portugal seu contemporâneo, o Álbum não é hoje fácil de perceber. Não festejou os cinquenta anos da Carta Constitucional restaurada com jaculatórias e novenas ao gosto presente, mas com um epigrama seco sobre a imagem de uma senhora anerógena a fazer tricot em casa: “Está velha, feia e estúpida.” No entanto, poder chamar estúpida a uma Constituição (e aliás a uma mulher) é um triunfo dessa Constituição, e revela as glórias que mais nos importam no Portugal do Álbum.