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Sabemos hoje a enorme exigência que a pandemia nos colocou em termos de resiliência digital, enquanto cidadãos e enquanto empresas. A digitalização acelerada que vivemos nos últimos meses representa, em situações normais, anos de trabalho, e foi sem dúvida um impulsionador efetivo da transformação digital. Portugal, juntamente com os 27 Estados-Membros da UE, foi posto à prova em novos domínios, com novos modelos de trabalho, novos canais digitais, novos métodos de capacitação e requalificação. Tudo áreas onde a tecnologia e a maturidade digital da nossa sociedade assumiram um papel central na resposta à crise pandémica.

O DESI é um indicador quantitativo publicado anualmente pela União Europeia desde 2015, que pretende avaliar e comparar a competitividade digital dos 27 Estados-Membros, identificando políticas nacionais e áreas de intervenção prioritárias para a inovação digital sustentada. Esta análise é estruturada em quatro dimensões fundamentais – Capital Humano, Conectividade, Integração de Tecnologia Digital e Serviços Públicos Digitais -, que são detalhadas em 33 indicadores, permitindo o acompanhamento da sua evolução ao longo do tempo.

Portugal ocupa o 16.º lugar entre os 27 Estados-Membros da UE na edição de 2021, subindo três lugares face a 2020. Apesar desta subida, verifica-se uma trajetória de atraso face à média europeia, que continua a aumentar em todas as dimensões, conforme representado no primeiro gráfico.

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Capital Humano

Na dimensão Capital Humano procura medir-se o nível de preparação e de competências digitais da população, o número de profissionais em área TIC e a formação superior. Nesta dimensão Portugal ocupa o 18.º lugar entre os 27 países da UE, com um baixo nível de competências digitais básicas em geral e em software, ocupando em ambos os indicadores o 19º lugar, muito aquém da média da UE.

Em termos de profissionais TIC, Portugal é o antepenúltimo na percentagem de licenciados em TIC e abaixo da média em termos de percentagem de especialistas TIC no mercado de trabalho. Destaca-se pela positiva a percentagem de mulheres especialistas TIC (22%,) ocupando o 4º lugar, e também a percentagem de empresas de formação em TIC, situando-se acima da média, no 13º lugar.

Apesar dos progressos observados, Portugal precisa de uma abordagem sistémica ao nível das competências digitais, segmentada pelos diversos grupos populacionais, que permita responder às necessidades de um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e exigente, de um sector empresarial em digitalização acelerada e carente de recursos qualificados, e que aposte na requalificação, na orientação vocacional precoce e na inovação e aprendizagem contínuas.

Conectividade

No que respeita à Conectividade Portugal ocupa o 15.º lugar na UE, destacando-se o aumento na adesão à banda larga fixa de pelo menos 100 Mbps, ocupando o 3º lugar, na cobertura da rede fixa de capacidade muito elevada (VHCN) situa-se em 7º lugar e na cobertura 4G está acima da média. Nos restantes indicadores, Portugal mantém-se muito abaixo da média da UE, tanto no que diz respeito à adesão à banda larga móvel (24º lugar), como na preparação e na cobertura 5G.

No geral, Portugal apresenta resultados positivos na adoção de banda larga e na implementação de redes de capacidade muito elevada. No entanto, para obter os maiores benefícios resultantes de nova plataforma de comunicações 5G é fundamental aumentar a percentagens de cobertura das redes de capacidade muito elevada e a adesão à banda larga móvel, incluindo nas zonas rurais.


Integração de Tecnologias Digitais

A dimensão Integração de Tecnologias Digitais procura medir a adoção de tecnologias digitais por parte das empresas na condução da sua atividade, com um conjunto de indicadores que vão desde a utilização de redes sociais, passando pelo comércio eletrónico, até formas de adoção digital mais avançadas como computação cloud, big data ou inteligência artificial. Portugal está classificado no 17º lugar na UE, tendo descido um lugar em relação a 2020 e mantém-se abaixo da média europeia.

Destaca-se pela positiva a utilização de TIC para a sustentabilidade ambiental – onde lideramos -, a percentagem de comércio eletrónico e partilha eletrónica de informação – em ambos no terceiro lugar -, seguindo-se a percentagem de empresas que utilizam inteligência artificial (8º lugar) e a percentagem de PMEs com venda online, na 11ª posição.

Pela negativa, a percentagem de PMEs com nível básico digital é muito inferior à média europeia (21º lugar), a percentagem de empresas a utilizar redes sociais (22º lugar) e a adoção de computação cloud que nos coloca a desacelerar face à UE (17º lugar).

Apesar da promoção ativa da tecnologia no nosso tecido empresarial, constituído maioritariamente por microempresas que operam em setores tradicionais com baixa literacia digital, é fundamental continuar a apostar em estratégias de integração de tecnologia digital nos processos de negócio, de promoção do empreendedorismo, de criação de conhecimento e propriedade intelectual e, paralelamente, complementar com a capacitação digital e requalificação dos profissionais. Uma nota para a estratégia de computação cloud para a administração pública, a cargo do C-TIC, que poderá representar para Portugal um importante acelerador da trajetória europeia nesta área.

Serviços Públicos Digitais

Esta dimensão procura medir a adoção de tecnologias digitais por parte da administração pública no seu relacionamento com os cidadãos e empresas, seja através da disponibilização de formulários pré-preenchidos, seja pela prestação de serviços online a cidadãos e empresas, ou pela disponibilidade de acesso a plataformas de dados abertos. Portugal ocupa o 14.º lugar, um lugar abaixo face a 2020, mas acima da média da UE.

O número de utilizadores de serviços públicos permanece muito abaixo da média da UE, no 22º lugar. Em matéria de formulários pré-preenchidos a classificação é superior à média europeia, ocupando o 11º lugar, bem como na disponibilização de serviços digitais ao cidadão e a empresas. Pela negativa destaca-se a baixa utilização e rentabilização de dados abertos, ocupando a 25ª posição.

A nova estratégia nacional para a computação cloud, de janeiro de 2021, aborda questões pendentes em matéria jurídica, contratual e financeira, preocupações com a segurança e a localização de dados, bem como questões estruturais tendo em vista a normalização e simplificação de conceitos, o que poderá reforçar a adoção de medidas para digitalizar serviços públicos. Em paralelo e de forma transversal, o esforço para melhorar as competências digitais básicas permitirão que uma maior percentagem da população beneficie destes serviços, beneficiando ambas as dimensões, as competências digitais e os serviços públicos digitais.

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Desta análise fatual destaca-se a importância da execução integrada e transversal do plano de transição digital do atual governo, devendo cada um dos três pilares, pessoas, empresas e estado, ser coordenado com os restantes. Fazê-lo isoladamente perdem-se as sinergias óbvias, por exemplo: para termos empresas competitivas, precisamos de pessoas com competências digitais, para termos serviços digitais melhores precisamos de uma administração pública ágil e capacitada.

Por último, é fundamental perceber que apesar de todos as iniciativas nacionais nesta matéria, os restantes 27 Estados-Membros continuam a desenvolver novas ações que lhes permitem manter a liderança no digital, como se constata na evolução temporal de cada indicador.

Não se trata por isso de uma corrida anual, com um vencedor a cada ano, mas sim de uma maratona, contínua e em ritmo acelerado, onde a inovação, a adoção de novas tecnologias, a requalificação e a aprendizagem contínua, são os grandes impulsionadores de curto e longo prazo.