Ao longo dos últimos anos temos assistido a um fenómeno de volatilidade e instabilidade permanente que atirou o panorama político nacional para um espetáculo imediatista e resultadista, consequência de sucessivos ciclos eleitorais de curta duração. Esta realidade levou à valorização dos sound bites diários em detrimento dos projetos políticos e à priorização das capas de jornal em prejuízo da qualidade de vida da população. A estabilidade política assume-se como um ativo da maior relevância para a vida pública portuguesa. Se, por um lado, permite a investidores e empresários uma maior segurança nos seus investimentos, levando à captação de riqueza para território nacional, por outro lado, permite aos responsáveis políticos a assunção de um projeto estável e prolongado no tempo que, maturado pela cadência dos dias, tenha consequências permanentes na melhoria da qualidade de vida dos portugueses. Até internacionalmente, o momento de instabilidade que se faz sentir do ponto de vista bélico, geo-político e económico reforçam a necessidade de garantir a maior estabilidade política em Portugal.

Ao longo das últimas décadas existe uma pergunta a que os responsáveis políticos têm evitado responder: Que modelo económico pretendem para o país? Que matriz financeira privilegiam para Portugal? O Ministro da Educação, Fernando Alexandre, terá resposta a esta pergunta. Professor de Economia durante largos anos, desenvolveu o seu Doutoramento em política monetária e identificou também, em tempo oportuno, a necessidade de transformação da economia portuguesa num sistema económico independente, sustentável, livre do carácter produtivo do “made in” e privilegiando a mais-valia gerada pelo “created by”.

Para os decisores políticos tão relevante como saberem o que querem, é saber o que não querem. Aí, creio existir um consenso: ninguém quer para Portugal um modelo económico assente em baixos salários e uma liberalização radical do mercado de trabalho que dispa os trabalhadores de qualquer direito ou proteção, atirando-os para uma realidade de permanente precariedade e ostracização.

Se Portugal – o parente pobre desta família de ricos que é a Europa Ocidental – quer garantir um crescimento sustentado com reflexo direto na melhoria da qualidade de vida das populações deve secundarizar o modelo vigente, assente em cadeias produtivas altamente dependentes de pequenas empresas e privilegiar indústrias de alto valor acrescentado e elevada rentabilidade. Há largos anos que os economistas apontam como a maior fragilidade do tecido económico luso a sua base empresarial. 96% das empresas portuguesas são microempresas, 3,99% são pequenas e médias enquanto apenas o restante 0,1% representa, efetivamente, grandes empresas. Uma economia com estas caraterísticas é uma economia frágil, vulnerável e exposta. É uma economia sem capacidade de crescimento, exportação, internacionalização, pagamento de salários competitivos, criação de emprego, valor ou riqueza. Para se ver livre das amarras da estagnação e do crescimento anémico, o investimento em educação e ciência afigura-se estrutural. Esta realidade não deve ter como alfa e ómega o investimento público, deve priorizar também uma política fiscal que promova a modernização e inovação por parte das empresas portuguesas. Em simultâneo, devem ser dinamizadas linhas de crédito bonificado para investimento em investigação e desenvolvimento e devem ser promovidas parcerias entre empresas e universidades. Entre 2000 e 2020 Portugal totalizou apenas 0,76% dos pedidos de patentes académicas europeias.

Uma economia mais dinâmica, que tenha como base o conhecimento e inovação, é compatível com uma economia mais verde e sustentável. O excesso de burocracia que se verifica atualmente é um dos principais entraves à competitividade dos mercados portugueses, que devem privilegiar a previsibilidade associada à estabilidade, sem comprometer a diligência processual com sobre-regulamentação.

O País necessita de mais criação e menos produção. Portugal precisa de mais valor acrescentado nas suas atividades, só desta forma poderá compensar de maneira mais justa e digna os seus trabalhadores, recompensando-os com salários mais elevados e melhores condições de trabalho, revertendo a sangria demográfica a que a perda de talentos para o estrangeiro tem condenado o país.

Em Portugal coexiste um panorama de pobreza e desemprego jovem com baixa mobilidade social. Neste contexto o crescimento económico afigura-se como condição essencial para que uma parcela significativa da população possa escapar à armadilha dos baixos rendimentos. O grande flagelo nacional continua a ser os baixos salários. É imperativo inverter esta tendência, colocar mais dinheiro no bolso das famílias portuguesas e, também desta forma, dinamizar uma economia que se quer pujante, com elevada reprodutibilidade de investimentos e alta capacidade de arrastamento da qualidade de vida da população.