Há um número nos nossos dados que resume, melhor do que muitos discursos, o estado do acesso à habitação em Portugal: o prazo médio dos créditos à habitação está a aproximar-se dos 33 anos. Uma geração inteira a pagar casa quase até à reforma.

É fácil ler este número como imprudência. Não é. Alargar o prazo é, para a maioria das famílias, a única alavanca que resta para fazer a prestação caber no orçamento quando o preço das casas sobe mais depressa do que os salários. Estica-se o crédito porque não se consegue esticar o rendimento.

O problema é que este alívio no presente tem uma fatura no futuro. Mais anos de crédito significam mais juros pagos ao longo da vida do empréstimo, ainda que a prestação mensal seja menor. Troca-se folga hoje por custo total amanhã, e faz-se essa troca porque não há alternativa à vista.

Não escrevo isto para alarmar, mas para nomear o que os números do último relatório sobre crédito habitação do ComparaJá mostram: comprar casa tornou-se um compromisso de muito longo prazo, e isso muda a forma como as famílias devem olhar para o crédito. Comparar propostas, negociar o spread e rever o contrato ao longo dos anos deixou de ser zelo, passou a ser gestão de uma dívida que nos acompanha meia vida.

A verdadeira discussão está a montante do crédito, no preço da habitação. Mas enquanto essa não se resolve, resta às famílias a arma que têm: decidir com informação, e não deixar que a hipoteca de uma vida inteira seja também a mais cara que podiam ter contratado.