As empresas (e as famílias) devem preparar-se para que as taxas de juro possam subir até níveis que podem chegar aos 4%, defendeu nesta sexta-feira Miguel Maya, presidente da comissão executiva do Millennium BCP. O banqueiro disse não querer “assustar”, mas aconselhou uma plateia de cerca de 100 empresários a considerar, no seu planeamento, cenários de “grande incerteza” e de uma subida mais acelerada das taxas de juro – caso contrário, “a probabilidade de as coisas correrem mal é elevada“.

A declaração foi feita por Miguel Maya em Lisboa, num discurso perante cerca de 100 empresários ligados à Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE). O banqueiro advertiu que a era dos juros ultrabaixos, que muita gente “achou que iria durar para sempre”, acabou: “é uma ficção, não existe – pode voltar a acontecer mas isto não é a normalidade”.

Num cenário de grande incerteza macroeconómica, Miguel Maya esclareceu que não antecipa “taxas de juro de 10% ou de 15%”, como houve no passado longínquo, “mas temos de estar preparados para que as taxas de juro andem entre os 2% e os 4%”. Dirigindo-se aos empresários, Miguel Maya salientou que “se fazemos investimentos e desenhos de projeto que não contem com taxas de juro de 2% a 4% então a probabilidade as coisas nos correrem mal é razoavelmente elevada”.

Maya admite que as taxas de juro podem alcançar os 4%, o que significaria igualar o valor que foi atingido na crise inflacionista de 2022/2023, em que o BCE elevou a taxa diretora até 4%. A antecipar que o BCE volte a subir os juros em dezembro, potencialmente de 2,5% para 2,75%, as taxas Euribor já estão a antecipar mais subidas no início do próximo ano e, por isso, rondam os 3% nesta fase (Euribor a seis meses, a mais usada no crédito à habitação).

O líder do Millennium BCP falou, também, sobre o tema da habitação, que tem dominado a agenda mediática nas últimas semanas, lamentando que estejamos “a responder porque não fomos capazes de planear e identificar os problemas atempadamente”.

Sublinhando que está a referir-se a mais do que apenas as “tendas que ali estão”, Miguel Maya sublinhou que o problema de acesso à habitação por uma grande parte da população existe e é resultado “da falta de capacidade de antecipação e a não-reação atempada“. “A não planificação, a não identificação dos problemas de forma atempada cria situações de rutura” e criaram “novas tensões para as quais temos de encontrar respostas – e estamos a responder porque não fomos capazes de planear“.

Os nossos políticos têm tido dificuldade em perceber que se não resolvemos os problemas a tempo, nós não somos capazes de tomar decisões duras, que têm de ser explicadas nos momentos certos. Estamos a atrasar decisões, a atrasar transformações e quando se atrasam transformações alimentam-se revoluções.

Miguel Maya sublinhou que “não existe democracia liberal sem estabilidade social” e elegeu, também, como riscos para as sociedades contemporâneas, a “desinformação” e a “cibersegurança“.