Em 21 de setembro de 2026, a Microsoft publicou o relatório “Global AI Diffusion Q2 2026 Trends and Insights”, a mais recente edição do seu barómetro trimestral sobre a adoção da inteligência artificial (IA) no mundo. Os números merecem ser lidos com atenção, sobretudo por quem, em Portugal, gosta de repetir que somos um país “digital”, “moderno” e “atrativo para o talento tecnológico”.

Comecemos pelo retrato global. Em junho, 18,8% da população mundial em idade ativa (dos 15 aos 64 anos) tinha usado uma ferramenta de IA generativa, mais um ponto percentual do que no trimestre anterior. Os Emirados Árabes Unidos (73,3%) e Singapura (64,3%) lideram com enorme folga, seguidos da Irlanda (49,9%) e da França (49,6%). A Espanha, aqui ao lado, está em sexto lugar, com 45,1%.

E Portugal? Aparece em 36.º lugar, com 27,4%. Atrás da Hungria, da Polónia, da República Checa, da Bulgária e da Eslovénia. Atrás da Costa Rica e do Vietname. Abaixo dos Estados Unidos (33%) e abaixo até da média do chamado Norte Global (28,8%), o clube a que tanto gostamos de pertencer. Crescemos um ponto no trimestre, exatamente o ritmo do mundo. Ou seja, não estamos a recuperar terreno nenhum.

A distância para Espanha é a mais incómoda. Partilhamos a península, uma estrutura económica semelhante e fundos europeus em abundância. E, no entanto, a adoção de IA do lado de lá da fronteira está quase 18 pontos acima da nossa. Não é um problema de acesso: as ferramentas são as mesmas, os preços são os mesmos, as redes portuguesas são boas. É um problema de competências, de cultura empresarial e, convém dizê-lo, de uma administração pública que continua a tratar a IA como tema de conferência e não como ferramenta de trabalho.

O relatório traz, porém, duas pistas que deviam interessar a quem decide. A primeira: nas regiões onde a adoção é menor, uma fatia desproporcionada do uso é dedicada à aprendizagem. No Sul Global, a aprendizagem autónoma pesa 29,2% mais do que na média mundial e o apoio escolar 32,3% mais. A IA entra pela porta da educação. Em Portugal, a escola ainda discute se deve proibir a IA nos trabalhos de casa, em vez de ensinar a usá-la bem.

A segunda pista é económica. Os modelos de pesos abertos, que qualquer empresa pode descarregar, adaptar e correr, já representam 75% dos tokens processados na plataforma OpenRouter e costumam alcançar os modelos fechados de topo em poucos meses, a uma fração do custo. A Microsoft dá o exemplo de um modelo aberto com desempenho semelhante ao de um modelo da OpenAI por cerca de um terço do preço. Para um país de PME, com margens curtas e pouca capacidade de investimento, esta é uma oportunidade rara. Adaptar um modelo aberto ao português europeu, ao direito português ou à relação com o Fisco está ao alcance das nossas universidades e empresas.

Convém não exagerar a precisão destes números. A medição assenta em telemetria da própria Microsoft, ajustada estatisticamente, e a empresa já anunciou que vai alargar a lista de ferramentas contabilizadas no próximo relatório. Mas dificilmente essa revisão nos colocará ao lado de Madrid ou de Dublin.

A lição é simples. A IA não se difunde por decreto nem por planos estratégicos de nome pomposo. Difunde-se quando as pessoas a usam no trabalho, na escola e no Estado. Os Emirados e Singapura perceberam isso há anos. A Coreia do Sul ganhou quase 15 pontos em doze meses. Portugal vai crescendo ao ritmo da média. E numa corrida em que os outros aceleram, andar à média é ficar para trás.