Há muitos anos que uma noite eleitoral não carregava tamanha densidade política. A primeira volta destas Presidenciais foi muito mais do que a vitória de António José Seguro ou a derrota de Luís Marques Mendes. Foi, acima de tudo, uma lição de humildade imposta pelo país à sua classe dirigente: há um sinal inequívoco de saturação face aos aparelhos partidários e à “bolha” do comentário televisivo.

Se há um ano se debatia o Almirante Gouveia e Melo como o inevitável favorito (capaz de vencer à primeira volta), hoje é claro que a figura do “antipolítico” não é a solução que o país aspira. Os resultados de Seguro, Ventura e Cotrim provam o oposto: a política está viva e recomenda-se.

António José Seguro, inicialmente rejeitado pela máquina do seu próprio partido, captou votos vitais ao centro-direita e executou uma campanha imaculada: evitou o desgaste, apelou ao voto útil à esquerda e provou que é possível superar a cegueira partidária em prol do perfil do candidato.

André Ventura, ao segurar o seu eleitorado legislativo, demonstrou que a sua base é fiel e imune a desaires autárquicos. Já Cotrim de Figueiredo, mesmo fora da segunda volta, furou o cerco mediático com modernidade digital, afirmando-se como uma alternativa credível e acima dos partidos.

A luz destes três vencedores projeta sombras longas sobre os vencidos. Marques Mendes sofreu uma rejeição inequívoca; Gouveia e Melo revelou-se um erro de casting; e a esquerda mais radical expôs a sua atual irrelevância: um megafone estridente, mas sem base de apoio popular.

Contudo, se estes são os nomes no boletim, fora dele a política torna-se fascinante e comprova a velha máxima: “o tempo da política não é o nosso tempo”.

Duas figuras dominaram estas eleições sem fazer um único comício. Pedro Passos Coelho emerge como o grande vencedor histórico. Os anos têm reforçado o seu capital político: muitos “passistas” votaram em Seguro como retribuição pela estabilidade que este garantiu durante a governação da Troïka; Ventura trata-o com deferência; e Cotrim admitiu que não avançaria contra ele.

Se Passos vence no silêncio, António Costa perde na evidência. A vitória de Seguro é a derrota definitiva do “costismo”. O PS, incapaz de gerar um candidato, e vergado a apoiar um antigo líder que Costa afastara na “noite das facas longas” (após a fatídica vitória do “poucachinho”), sai memorizado. No seu discurso de vitória, Seguro eclipsou a palavra “socialista”. A sua vitória pessoal é o atestado de óbito do legado de Costa, que vê a esquerda encolher e o seu antigo rival renascer.

Mas se Passos ganha e Costa perde, é impossível não falar sobre um outro rosto: Luís Montenegro.

O atual Primeiro-Ministro, taticamente hábil na gestão governativa e no processo autárquico, falhou redondamente na leitura presidencial. O apoio a Marques Mendes só se entende por um erro de cálculo: apostar numa derrota honrosa contra um Gouveia e Melo vencedor. Mas Mendes nunca entusiasmou, acumulou demasiados anticorpos e, como Pedro Santana Lopes notou, este resultado é o fim de um ciclo de vinte anos.

Apoiar Mendes foi um erro; a reação à derrota foi um desastre. Ao declarar “não estaremos” na segunda volta, Montenegro optou por eclipsar a direita democrática. O autor do “não é não” abdicou do seu papel histórico de fiel da balança e guardião do regime.

O resultado? Deixou o campo aberto para André Ventura se assumir como o rosto de oposição à esquerda política, correndo o risco de ver o líder do Chega a ter mais votos numa segunda volta do que a AD teve nas legislativas. O humilhado não é Montenegro, é toda a direita moderada que, fragmentada, fica fora da decisão. Montenegro tinha o dever de evitar esta humilhação. Não o fez. Resta saber se ainda vai a tempo de emendar a mão.