O desejo imperialista de Putin tem raízes antigas as quais o ocidente não pode ignorar. A invasão da Ucrânia é mais do que um simples ataque a um país soberano, na medida em que representa o eterno desejo de afirmação da Rússia perante o ocidente.

Quando o antigo KGB Vladimir Putin afirma que os ucranianos nunca foram um povo autónomo, não está a fazer mais do que retratar a ideia de Russkiy Mir: um mundo de influência russa sobre a cultura, língua e até religião.

Um conceito herdado do antigo Império, que acabou por ser recuperado no pós-queda da União Soviética como uma ideia romântica de ressurreição russa. Talvez seja por isso que Riga Kudors tenha escrito em 2010 que “o mundo russo é um conceito ideólogo do conceito de cultura russa e da sua missão no mundo” e que Putin tenha usado soft power das suas relações públicas para solidificar essa narrativa. Com base nessa estória, perpetuada ao longo de vários anos, Putin justifica as ações sobre si mesmo.

Este apetite expansionista russo não é novo. E não deve ser banalizado apenas como uma ação de Putin. Este é o líder de uma nação que historicamente sempre apresentou um apetite imperialista. A União Soviética e o Império são duas experiências marcantes que Putin tenta replicar para cumprir novamente o antigo sonho da Nova Roma.

Quando da queda de Constantinopla perante as mãos dos Otomanos, os padres ortodoxos que fugiram para Moscovo difundiram a ideia de que a terceira e última Roma seria a da capital russa, cumprindo o desígnio de unir o mundo ortodoxo num novo e definitivo império.

É esse pensamento que parece recalcado na psicologia de Putin, e que ignorámos durante anos. Muitos começaram por se rir das paradas militares em Moscovo, desconfiaram da intervenção russa em eleições externas, relativizaram a morte dos reféns no teatro de Dubrovka, esqueceram-se da anexação da Crimeia, e ignoraram a ação militar na Geórgia.

Em todos esses momentos, há uma constante: a demonstração ao mundo de que a Rússia é ainda uma grande potência e não se verga perante ninguém. E se não o é, faz sempre por o parecer – tal como à mulher de César se exige.

Até onde chegará o aspirante a imortal que joga com as nossas vidas e os nossos destinos? Lembro-me claramente do anúncio de Ronald Reagan sobre o urso soviético: “isn’t it smart to be as strong as the bear, is there is a bear?” Talvez esteja na hora de nos levantarmos e mostrarmos que não temos medo do urso. Putin, ao bom estilo de um bully de uma qualquer escola secundária, gosta de se meter com os mais fracos, fazendo disso a sua propaganda.

Talvez nos falte alguém mais forte, capaz de travar o devaneio de um mestre da psicologia do medo. Mas que nunca se bateu de igual para igual. O que faria Thatcher, Merkel, de Gaulle ou Churchill nesta situação? É hoje, cada vez mais claro, que precisamos de líderes europeus capazes de afirmar o ocidente perante o mundo.

Que a Nova Roma de Putin nos sirva de lição: hoje, a Rússia volta a parecer uma grande potência. Por contraste, o ocidente aparenta ser mais pequeno e, refém de si mesmo, sem saber o que fazer. Até quando?