A luta política em Portugal é geralmente feita com base no presente, por vezes com base em acontecimentos e ideias do passado e raramente é baseada no debate de opções com vista ao futuro. Ora, como defendo há mais de há trinta anos, quando pela primeira vez li o livro “O Choque do Futuro” de Alan Toffler e iniciei na Marinha Grande a escrita das “Crónicas do Futuro”, onde tratei a aceleração da mudança no nosso tempo e a necessidade de os decisores políticos e empresariais saberem antecipar as transformações da sociedade e da economia. Não o fazendo, os dirigentes políticos e os empresários estarão sempre atrasados nas suas opções, repetindo soluções que o tempo tornou obsoletas. Infelizmente, é o que está a acontecer hoje entre nós.

Como exemplo, evoco a moção que há cerca de vinte e cinco anos apresentámos- eu, o arquitecto Pereira da Silva e o professor Carlos André – ao XII e XIII congressos do PS, onde antecipámos duas ideias a que o tempo deu razão. A primeira foi uma análise do que se passava na Irlanda, nomeadamente na economia irlandesa, chamando a atenção dos governos de António Guterres para a necessidade de assumirmos um modelo económico semelhante. Escrevemos então: “Ou seja, a competitividade das empresas e da economia portuguesa em geral, necessária para melhorar a vida dos portugueses, depende de uma relação de troca mais favorável com o exterior, só possível através de um sector produtivo moderno e tecnologicamente avançado, capaz de criar produtos inovadores e valorizados nos mercados internacionais”. Acrescentámos a seguir: “Esta convicção é confirmada pela experiência da Irlanda, pois que partiu de uma base de desenvolvimento tão pobre quanto a portuguesa e com quem temos diversas afinidades culturais e religiosas, mas cuja economia cresceu no período de 1994-1998 à média de 7,2% ao ano, contra 2,9% em Portugal, criando mais emprego, com menos stock de capital e, principalmente, com maior produtividade do trabalho”.

O segundo exemplo foi a previsão do fenómeno das imigrações para a Europa, com a proposta de criar as condições de fixação dessas populações nos seus países de origem. Escrevemos:”. Repetimos que o fenómeno da globalização não pode ser corretamente analisado usando os critérios normais do nosso tempo e, menos ainda, através dos interesses das sociedades industrializadas. Para compreender a globalização e, principalmente, para a orientar no sentido dos valores humanistas que nos são tão caros como europeus, deveremos ser capazes de antecipar as transformações políticas, económicas e sociais, em que a solidariedade deve assumir o papel determinante. Nesse sentido, uma segunda reivindicação das forças do progresso global deve conter uma transferência de recursos dos países desenvolvidos do Norte para os países pobres do Sul, recursos a serem geridos nesses países pelas Nações Unidas e destinados apenas à educação e à saúde, através, por exemplo, de uma taxa de 1% sobre todo o consumo de bens e serviços dos países desenvolvidos, valor acrescido de 1% sobre as importações oriundas dos países em via de desenvolvimento.”

Escrevemos ainda: “Trata-se de uma “Jangada de Pedra” de solidariedade dos povos do Norte em direcção aos povos do Sul, que pretende confrontar, na sua viagem para o Sul, os socialistas e os homens de esquerda, com a sua própria consciência, bem como as sociedades ocidentais nas suas afirmações de apoio às Nações Unidas e ao seu papel na construção da paz e da justiça social em todo o mundo, mas a quem são recusados os meios para realizar os seus nobres objectivos.”

Ao tempo, não podíamos prever que um dia António Guterres seria o Secretário-Geral da ONU, mas tentei que ele evocasse a estratégia na Internacional Socialista de que era dirigente. Infelizmente, durante o congresso Almeida Santos não me deixou falar mais de dez minutos e fui bastante gozado pela proposta daquilo a que chamavam depreciativamente a “Taxa Neto”.

Ou seja, quando as grandes questões a surgirem no futuro não são previstas, estas tornam-se mais tarde intratáveis e transformam-se nos elefantes da sala. É o que aconteceu com a incapacidade de dar à política e à economia portuguesas uma orientação estratégica então facilmente previsível e foi deixado que as migrações em direcção à Europa se tornassem no desastre maior do nosso tempo, desastre que está a conduzir ao crescimento da extrema-direita no debate político europeu, além do desespero e da morte de milhões de seres humanos.

Em resumo, se apenas preocupados com o presente e sem uma definição estratégia de uma página orientadora do nosso esforço colectivo em direcção ao futuro, a governação em Portugal, como na Europa, será sempre uma sucessão de relativas inutilidades bem-intencionadas.