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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito das Manhãs 360. Hoje é nossa convidada Elvira Fortunato, cientista, investigadora, professora catedrática, antiga ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Bom dia, bem-vinda. Não temos a manhã toda, senão eu continuava.
Sim.
Bem-vinda, obrigada por ter aceitado o nosso convite. São cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Se tiver a nossa ajuda e acertar, recebe dois. Vamos a isto?
Isto é mesmo um desafio.
Ontem, a Fernanda de Almeida Pinheiro fez 19 pontos. O máximo são 25. É bom. É desafiante.
Mas eu tenho desde já a dizer que a minha memória é muito má.
É muito traiçoeira.
Prefiro ideias.
Vamos ter ideias.
Vamos começar por uma que achamos que é simples. A revista Forbes voltou a colocá-la na lista das mulheres mais poderosas dos negócios, na 33ª posição. Que empresária ocupou o primeiro lugar?
Cláudia Azevedo.
Exatamente, CEO da Sonae. Estar nesta lista traz mais responsabilidades ou só mais orgulho?
Acho que são as duas coisas. Aliás, eu estou na lista na categoria de ciência, não pela minha fortuna ou por gerir uma empresa muito grande. Mas acima de tudo, é um orgulho e é também uma responsabilidade, porque eu já recebi vários prêmios ao longo da minha carreira e isso coloca-nos sempre, acabamos por ser um modelo e é isso que eu também pretendo, inspirar as novas gerações. E é uma responsabilidade muito grande. E um orgulho, como é evidente.
Como mulher da ciência, habituada a resolver problemas com pragmatismo, o que foi mais difícil quando esteve no governo e foi preciso desbloquear a falta de alojamento para o ensino superior?
É verdade. Aliás, eu tive duas grandes prioridades quando cheguei ao governo. Na área do ensino superior, foi exatamente o alojamento. Nós estávamos com uma crise enorme, tínhamos um PNAES, o Plano Nacional de Alojamento para o Ensino Superior, que tinha acabado de arrancar. Aliás, eu quando cheguei ao governo, o concurso tinha já terminado para as novas residências, reabilitações, mas era um problema muito grande, porque nós não podemos ir a um supermercado e comprar uma cama ou um edifício e tínhamos os alunos a precisar, especialmente os alunos bolseiros e deslocados, até mesmo em alguns casos os internacionais. E aí a prioridade foi mesmo aumentarmos quatro vezes o subsídio de alojamento para os alunos deslocados.
Para eles poderem ir ao mercado, no fundo, à procura de alojamento.
Exatamente. Aliás, nas zonas mais caras, porque nem todas as zonas do país têm o mesmo nível. Por exemplo, aqui em Lisboa, que é um dos mais caros, esse subsídio chegou a ser quase de € 500 por mês, exatamente para alunos bolseiros deslocados.
Ainda assim, o problema da habitação para os universitários é um problema grande e continua a sê-lo.
É um problema grande e continua a ser. Aliás, o PRR deu um impulso muito grande a esse nível, porque foi uma área que ficou esquecida durante muitos anos, infelizmente. E nós temos que garantir não só ter um ensino de qualidade, um ensino superior que assente até na investigação, mas temos que dar, acima de tudo, condições aos nossos estudantes. Hoje em dia, não é só aquele curso que o aluno escolhe, mas é o pacote, é toda a envolvente e o alojamento. E se nós queremos atrair os melhores para o ensino superior, temos que ter condições para eles virem estudar e estar num campus universitário e terem todas as condições para além daquelas mais ligadas à parte do ensino.
Sabendo nós que há muitos que nesta altura não conseguem fazer isso.
É verdade. Mas pronto, gostaria de dizer que o PRR, nesse ponto, deu um impulso muito grande. É evidente que o número de camas que estão projetadas e que têm que terminar este ano, porque o PRR acaba este ano, ainda não vai ser suficiente, mas foi um impulso muito grande, aumentamos em cerca de 80%. Não tenho agora os números atuais do atual governo.
Mas é significativo.
80% foi um número muito significativo.
Muito bem. Este primeiro número está bem. Cinco. Vamos à segunda pergunta. E vamos continuar na experiência governativa, para lhe perguntar quantas ministras mulheres tinha esse governo. Ainda se lembra quando se sentava à mesa?
Éramos metade.
Isso é?
Isso é.
Havia a paridade.
Havia paridade. Agora o número exato de pastas governativas.
Ainda por cima eu percebo que não está muito a fazer por conta, porque é um número relevante.
É relevante e não é muito normal até em termos internacionais. Aliás, eu tive o prazer de estar sentada todas as quintas-feiras em paridade.
Quer com ajuda? Não chega aos dois dígitos. Quer ajuda? Cinco, oito ou nove mulheres ministras.
Oito.
Nove. Oito eram as outras, se calhar não estava a contar consigo. Essa experiência de participar num governo de política ativa é para repetir? Gostava da experiência?
Foi uma experiência muito desafiante. Aliás, eu não tinha experiência governativa até então, mas apanhei uma fase também mais complicada, tivemos muitos desafios, mas acima de tudo, também acho que é um orgulho nós podermos, de alguma forma, utilizar o nosso conhecimento para resolver problemas do nosso país.
Sentiu que conseguiu resolver problemas.
Não se conseguir todos, como é evidente. E acho que nunca ninguém vai conseguir resolver todos os problemas que nós temos, quer em Portugal, quer noutro país. Mas não sei.
Ontem tivemos também uma ex-bastonária dos advogados que dizia que continuamos numa sociedade muito patriarcal. Nota isso na ciência, mas também na política?
Também. Ainda é um bocadinho.
Nessas duas áreas ou uma mais do que outra?
Quais duas áreas?
Na ciência e na política.
Mais na política do que na ciência.
Sim. Por que será?
Sei lá, porque na ciência nós não estamos tão condicionados. Por um lado, também há mais meritocracia, nós na ciência não temos que estar filiados numa cor. Aliás, eu costumo dizer que eu tenho uma liberdade científica total. A ciência é sinônimo quase de liberdade. Na parte política, nós estamos muito mais condicionados. Penso que não há essa liberdade. Eu vou para o meu laboratório qualquer dia de manhã e, desde que tenha financiamento, evidente, temos que concorrer a projetos, há áreas, mas a minha liberdade científica é das coisas que eu mais prezo na minha atividade.
E não ficou limitada depois da passagem por um governo de um partido, do Partido Socialista?
Não fiquei limitada.
Não se sentiu mais.
Aliás, fiquei com uma visão muito melhor, não em termos de ciência, porque isso já era a minha área, mas em termos do país, fiquei com uma visão completamente diferente e muito melhor. Aliás, as notícias são sempre coisas um pouquinho negativas, quer dizer, as boas notícias, por definição, não são notícia. E nós estamos na nossa bolha, eu estive todo o meu tempo na Universidade Nova de Lisboa, os congressos, na minha atividade científica, nós acabamos por estar um pouquinho mais deslocados até daquilo que se passa aqui à nossa volta, neste retângulozinho. E o fato de eu ter estado no governo e ter viajado muito e ter conhecido muitas instituições, nomeadamente instituições do interior, que eu desconhecia, e com coisas muito positivas, isso para mim foi muito bom. Quer dizer, eu aprendi e fiquei a conhecer muito melhor o meu país, coisa que eu até aí não conhecia. E pelas boas razões, o que é muito importante. Eu às vezes podia ter ficado a conhecer pelas más. Não, fiquei a conhecer pelas boas razões. Temos um país com instituições excelentes, investigação de primeira água, isso foi muito positivo.
E sobre o exercício da política, aquilo que tinha uma ideia, seguramente, vista de fora, quando conheceu por dentro, ficou desiludida? Ficou reconfortada?
Lá está. Também estive dois anos. É evidente que não tive um mandato e há coisas que demoram algum tempo. Nós não podemos chegar e não temos uma folha em branco e começamos a escrever. E as coisas não param, há coisas que têm que continuar o seu percurso. Quer dizer, em termos de limitação, nós na política temos que decidir, por vezes, mais depressa. É evidente que para todas as decisões é importante a evidência científica, é bom nós termos todos os estudos. Por vezes, isso não acontece, e temos que ter alguma rapidez a decidir. Mas acho que não me custou. É evidente que houve coisas que eu não consegui fazer, e algumas até vão ter um efeito mais à frente.
Mais demorado o tempo.
Porque as coisas às vezes não são imediatas. Eu não carrego aqui no interruptor da luz, a luz não acende logo, demora algum tempo até acender.
Há todo um circuito.
Muito bem, seguimos em frente então, Elvira Fortunato, para a terceira questão. Em que década foi criada a Fundação para a Ciência e Tecnologia, FCT?
A FCT, a Fundação para a Ciência e Tecnologia, foi na década de 90.
FCT sempre foi em 97, foi o ministro Mariano Gago.
Exatamente, pois foi. Aliás, exatamente, é a idade da minha filha.
Estava mais concentrada em outros nascimentos.
Este governo decidiu avançar para fundir a Fundação para a Ciência e Tecnologia com a Agência Nacional de Inovação, a ANI, criando a AI2. Como é que olha para esta medida?
Olhe, para já, à partida, não olho de uma forma muito positiva, mas o tempo dirá. Para já, não sabemos ainda muito bem como é que a AI ao quadrado ou a AI2 vai funcionar, mas há uma coisa que eu acho que é muito importante e gostaria aqui de realçar. A forma como a AI ao quadrado está estruturada, muito ligada para a área da inovação, para a área da transferência de tecnologia, por vezes não é muito compatível com a parte da ciência mais dita fundamental. Aliás, eu contra mim falo, porque eu sou engenheira, eu tenho até uma investigação.
Está nessa ligação à aplicação prática das coisas.
Eu tenho uma aplicação muito prática, a minha área é uma questão de escolha, porque lá está, gosto de ter soluções e estou muito ligada à área das empresas. Mas acho que a investigação fundamental é primordial, é extremamente importante. E aliás, nós nunca podemos ter inovação sem ter a investigação fundamental, porque na área, por exemplo, das vacinas, quando se começaram as vacinas, não era exatamente para aquele objetivo final, mas houve que trabalhar muito atrás e a vacina só apareceu porque se fez ciência mais fundamental naquela área. Não há inovação sem ciência fundamental. Isto é um comboio. Estarmos direcionados só para uma área, podemos estar a perder na parte mais fundamental, mas lá está, isto só daqui a muitos anos.
É preciso ver se esse equilíbrio permanece ou vai caindo.
Aliás, e nós não vivemos no mundo de forma isolada. A maioria dos países, e até os países em que há uma aposta maior em termos de ciência, têm duas agências sempre separadas. Têm uma agência mais ligada para a ciência e têm uma agência mais ligada para a inovação e mais ligada com as empresas. Penso que, na minha opinião, pessoalmente não estou de acordo e acho que deveriam existir estas duas. Existir, sim, uma ligação maior entre as duas. Aliás, eu quando estive no governo, quantas reuniões ao sábado eu tive com a direção da FCT e com a direção da ANI, exatamente porque temos que trabalhar em conjunto. Há ali uma zona que faz exatamente: uma começa onde a outra termina. Mas não queria fundir as duas, porque acho que aí as coisas acabam por Por se diluir.
Muito bem. Seguimos?
Sim, mas é preciso dar tempo ao tempo. É o que está a dizer. Não se acaba agora.
Claro, estas medidas têm tempo.
Para haver resultados.
Eu até como cientista espero que corra bem, porque se correr mal somos nós todos e é o país que acaba por perder. Ou se calhar já não tanto, porque já tenho mais idade, mas preocupa-me exatamente a futura geração e os novos cientistas.
Vamos falar da geração mais nova. Como se chama o colégio de magia e bruxaria frequentado pelo feiticeiro Harry Potter? Esta é que não estava à espera.
Se calhar nunca leu.
Não viu.
Vi vários filmes do Harry Potter, mas não me recordo a sério.
Assim que a Carla disser, vai lembrar-se.
Vi vários filmes do Harry Potter, praticamente todos.
Vai ver. Será o Colégio Moderno, o Colégio das Quatro Torres ou Hogwarts?
É o último, Hogwarts. Exatamente, é isso. Exato.
Não é bem para feitiçeiros nem para mágicos, mas este ano, pelo menos na primeira fase, bateu-se o recorde do número de alunos que concorreram para o ensino superior, o concurso da primeira fase. Mais de 60 mil. O que isso significa?
Por um lado, é bom. Nós todos queremos ter uma população mais evoluída, portanto, temos que apostar-
Mais qualificada
...mais qualificada, nas pessoas. Não temos recursos naturais, temos exatamente as pessoas e é nelas que temos de apostar. Contudo, eu penso que eventualmente esse aumento, porque vai um bocadinho contra a demografia, quer dizer, não temos muitos mais jovens que nasceram há cerca de 18 anos. Eu penso que esse número tem um bocadinho a ver exatamente porque houve uma alteração este ano nas regras de acesso ao ensino superior e não são pedidos dois, muito embora tenha sido dada liberdade às instituições de ensino superior para pedirem entre uma prova e três exames, e houve muitos que recorreram só a um exame. Eu penso que isso está também na base pela qual temos mais alunos a concorrer, a serem candidatados ao ensino superior. Mas mais importante do que isso é chegarmos agora ao fim, vermos quantos é que ficaram colocados, ver se realmente isso teve efeito ou não e fazer também depois o acompanhamento desses alunos.
Porque há muitos que desistem.
Sim. Aliás, o primeiro ano é crítico.
Decisivo. Por que é? Porque os alunos não chegam preparados à imaturidade, escolheram o curso para o qual não têm vocação.
Várias razões, até às vezes a própria forma como são orientados. Há uma diferença enorme entre vir do secundário, vir do liceu e chegar à universidade. A diferença é muito grande. Aquele acompanhamento que nós tínhamos, deixamos de ter, muito embora nós, e eu como professora, tento também combater um bocadinho isso, porque nós temos que os acarinhar e os saber integrar. E o primeiro ano é fundamental. Temos que trabalhar muito nisso exatamente para evitarmos, muito embora as nossas taxas de abandono também não são muito elevadas, andam nos 7%. Acho que até são bastante inferiores às médias internacionais. São várias as razões, mas acima de tudo, o primeiro ano é crítico.
Muito bem, vamos para a última questão, 14 pontos.
Sim.
Catorze pontos até agora.
Já estou positiva.
Já está positiva. A indústria têxtil é das principais exportadoras do país, responsável por cerca de 8% das vendas de produtos ao exterior. A pergunta é: qual é o principal mercado dessas exportações? Para onde é que nós exportamos mais têxteis?
Para onde é que exportamos mais têxteis?
Para que país? Alda Virgínia Fortunato. Tem alguma ideia? Quer pensar e ir pensando alto?
Sim, pensa em voz alta. O têxtil.
Sim, eu até ganhei agora um projeto europeu na área dos têxteis técnicos.
A pergunta não é inocente, claro.
Têxteis técnicos com muitos sensores, para a área da saúde, etc.
Sim, um mercado em crescimento. Esse mercado do material técnico.
Material técnico.
Genericamente, sabe qual é o país para onde exportamos mais de tudo? Qual é o nosso principal parceiro comercial?
Espanha.
Está certo.
Isso mesmo.
Com o têxtil não é diferente. Cerca de 23% do têxtil são exportados para a Espanha. Precisamente porque está em projetos, está novamente dedicado à investigação de materiais avançados para a área eletrónica sustentável, aquilo a que se chamam têxteis técnicos.
Técnicos e inteligentes também.
E inteligentes. Quer nos explicar o que é isso e que futuro é que vem por aí para as nossas vidas, o dia a dia, a esse nível?
Sim, há várias aplicações. Aliás, posso até referir um bocadinho este projeto em que nós estamos agora envolvidos, seja para a área de têxteis para o espaço, astronautas, até mesmo turismo espacial, a parte oceanos, etc. A ideia é termos a parte do desporto, é termos nos próprios têxteis muitos sensores que nos façam exatamente toda esta sensorização de ritmo cardíaco, mesmo com alguns biomarcadores. Nós hoje em dia, através do suor, podemos determinar muitas coisas, muitos biomarcadores que antigamente só eram possíveis de ser feitos através de uma análise ao sangue. Por exemplo, na área do desporto e cada vez mais alta competição, é muito importante nós termos uma avaliação, não antes ou depois, no fim do atleta executar a prova, mas durante essa prova, até os jogadores de futebol.
E a roupa vai fazer isso.
E a roupa vai fazer isso, porque nós vamos conseguir embeber dentro das próprias fibras, aliás, conseguimos transformar as fibras, seja uma fibra de um poliéster, seja uma fibra de algodão, nós podemos transformar essas fibras em sensores, em materiais condutores. Aliás, nós estamos agora a transformar as próprias fibras do têxtil em grafeno. Grafeno foi até o motivo do Prêmio Nobel da área da Física em 2010, e nós, através de uma simples fibra, conseguimos transformá-la de uma forma também sustentável, porque uma das nossas áreas na área da investigação trabalhamos muito a sustentabilidade, que estes materiais avançados têm também que ser sustentáveis, senão vamos continuar a poluir aquilo que já fazemos, por exemplo, com a indústria dos semicondutores.
Mas o futuro vai ser esse? Nós hoje já temos, estou a ver que tenho também um smartwatch que vai medindo uma série de indicadores. O futuro vai ser isso? Visto bem, nós no dia a dia vamos ter uma T-shirt, uma camisola, que está a monitorizar o nosso estado de saúde nalguns indicadores.
Sim, vamos ter, num futuro muito próximo.
A um preço acessível, imagino.
Lá está, por isso é que estas coisas ainda não estão acessíveis.
Está a contar para o seu smartwatch.
O smartwatch. Mas daí que nós trabalhemos na parte da sustentabilidade, não só utilizar materiais que não são poluentes, são materiais abundantes e as tecnologias de processamento também não são poluentes e que o custo final seja muito mais acessível, de forma que possa ser utilizado por nós todos, e não só por uma elite que tem acesso a estes gadgets.
Ainda bem que é assim. Alda Virgínia Fortunato, 19 pontos nesta comissão de inquérito.
Ok, muito bem.
Foi um gosto recebê-la. Obrigada por ter vindo.
A você, Carla Boa Morte. Um bom dia para si.
Obrigada pelo convite.
Obrigada.
Boa semana.