O ex-ministro do PS José António Vieira da Silva publicou recentemente no jornal Público uma página de opinião acerca de um texto do jornalista Mário Carvalho sobre a recente criação do Conselho Estratégico do Partido Socialista, referindo serem os seus membros, na sua esmagadora maioria, de idade algo avançada, respondendo Vieira da Silva com o seguinte: “Mas a reflexão aí ensaiada, ainda que pouco original, segue uma linha frequente na nossa vida colectiva: o idadismo, a avaliação discriminatória de um grupo pelas suas características etárias. Os “velhos” e os jovens são os alvos preferidos”.

Salvo melhor opinião ambos os textos falham o alvo, a questão principal do novo Conselho Estratégico do PS tem pouco a ver com a idade dos seus membros, mas com a ausência de ideias para os problemas do País, dado serem, na sua maioria, socialistas com variadas responsabilidades no passado do partido e dos governos do PS, com resultados desgraçadamente pobres, para não dizer trágicos. Ou seja, como podem aquelas almas aconselhar fazer algo de diferente, ou ter ideias diferentes daquelas que defenderam e praticaram ao longo da governação de José Sócrates e de António Costa? Esse é o grande problema do novo Conselho Estratégico, composto por pessoas que ao longo de um quarto de século nunca mostraram saber o que era estratégia e que nunca seguiram ou advogaram uma qualquer estratégia conhecida. Trata-se de pessoas que durante todos esses anos sempre promoveram a navegação à vista, políticos que sempre excluíram fazer as reformas necessárias e que conduziram o País para uma bancarrota e para a cauda da União Europeia. Essa é a questão e não a idade.

Neste contexto, José António Vieira da Silva é um bom exemplo, já que perdeu a oportunidade do silêncio quando escreveu no seu texto: “Em vinte e cinco anos de vida pública, muitos deles em posições de governo, nunca reagi por escrito a qualquer texto ou comentário que me fosse dirigido”. Triste confissão esta de um governante que durante um quarto de século nunca defendeu por escrito as suas ideias e decisões criticadas ou denunciadas publicamente. Pessoalmente, deixo aos leitores o exemplo de um caso, um entre muitos, que sempre considerei dever ser explicado pelo então ministro: trata-se da compra e venda pela Santa Casa da Misericórdia de um prédio com a perda de muitos milhões de euros, prédio que tinha sido comprado pouco tempo antes por 18 milhões de euros e que Vieira da Silva autorizou a compra por 32 milhões, vendendo-o a seguir por bastante menos. Recordo que o jornal Público publicou vários textos de uma investigação bastante detalhada e competente sobre esta questão, sem que o assunto tenha alguma vez sido esclarecido pelo ministro, ou pelo governo. Sabemos agora que isso se deve à estranha fidelidade do então ministro ao silêncio, mesmo em casos de interesse público como o descrito.

Recordo este caso que sempre me pareceu estranho, dada a recente intervenção pública de Vieira da Silva, tendo como pano de fundo o novo Conselho Estratégico do PS. Contudo poderia recordar muitos outros casos em que vários dos ilustres conselheiros contribuíram com idêntico silêncio em muitos outros negócios e decisões mal pensadas e nunca explicadas. Algumas, infelizmente não todas, estão sepultadas nos milhares de páginas do Processo Marquês, algumas outras em muitos outros processos de menor dimensão, como ainda outras que vegetam no esquecimento público.

Em resumo, a questão a debater não é a idade dos membros do Conselho Estratégico do PS, mas a conhecida impreparação de muitos dos seus membros para uma visão, ou estratégia, para a governação. Se tivessem essa visão ou estratégia, teriam resolvido muitos dos problemas do crescimento económico, da saúde, da educação, da justiça, do baixo rendimento dos portugueses e até dos fogos que estamos agora a viver, tudo problemas que deixaram por resolver. Ou seja, com as ideias deste Conselho Estratégico o Partido Socialista não vai longe.