Temos assistido recentemente, em alguns países europeus, incluindo Portugal, a manifestações de jovens, por vezes marcadas por episódios de violência, a reclamar vários direitos: à habitação acessível, à educação de qualidade, a salários dignos e a melhores perspetivas de futuro. Se, nuns casos, compreendemos e até apoiamos essas reivindicações, noutros torna-se difícil perceber o que se pretende, quando as palavras de ordem dão lugar ao vandalismo e à intimidação, como se existisse também um direito à destruição e à desordem pública.

A sociedade falhou na prosperidade e no equilíbrio social. As causas do descontentamento são reais: salários baixos, rendas incomportáveis e um país que não tem oferecido oportunidades suficientes, empurrando para a emigração muitos dos jovens mais qualificados.

Apesar da complexidade do tema, julgo que vale a pena discutir o aproveitamento político dessa insatisfação. Destaco a crença errada, alimentada por algumas forças políticas extremistas, de que é possível obter sucesso sem esforço e trabalho. O esforço não garante automaticamente o sucesso, mas não pode ser dispensado como se fosse um pormenor.

A tradição aristotélica explica porquê. Na Ética a Nicómaco, a virtude moral desenvolve-se pela prática e pela habituação: tornamo-nos justos praticando atos justos, e a educação deve ajudar-nos a orientar desejos e ações. A vida boa exige capacidades cultivadas, além de oportunidades disponíveis. Se o caráter se forma pelo hábito, formar os jovens para o esforço é, antes de mais, uma responsabilidade das várias instituições, incluindo a família.

Uma sociedade pode proclamar direitos e, ainda assim, ter dificuldade em formar pessoas capazes de os exercer com responsabilidade. Um país não sobrevive numa espiral contínua de satisfação de direitos sem que haja também, do outro lado, a necessidade de cumprir deveres, entre os quais está o dever de dar um contributo individual para o progresso.

Penso que há uma intencionalidade no aproveitamento político da reivindicação permanente dos mais variados direitos. Há o propósito de capturar a insatisfação dos mais jovens perante as dificuldades e a falta de perspetivas. A psiquiatria ajuda a compreender os riscos desta mensagem: quem convence um jovem de que nada depende dele não o liberta; pode deixá-lo mais impotente, ansioso e revoltado.

Em vez de ajudarem os jovens a investir no trabalho e no esforço individual, essas forças políticas canalizam a frustração para criar o «jovem insurreto». Através de uma espécie de engenharia social, pretendem uniformizar os indivíduos a fim de os converter num grupo reivindicativo, facilmente moldável para as causas revolucionárias. Quando todas as responsabilidades são atribuídas a um inimigo externo, deixa de haver espaço para a autocrítica, alimentando-se crenças ilusórias.

A estratégia das forças políticas extremistas passa habitualmente por desvincular o indivíduo da família, dos princípios e dos valores tradicionais, apagando, deste modo, todo e qualquer sentido de pertença. A promessa é a de que a riqueza, a justiça e o progresso são alcançados através da revolução, do combate perpétuo às instâncias repressoras. É esta a mercadoria dos vendedores de ilusões: um futuro que dispensa o esforço e adia indefinidamente a responsabilidade.

Porém, a riqueza e a prosperidade devem ser alcançadas através do trabalho, já que ele permite a solidariedade social e a dignidade humana. Os direitos também têm limites. Exigir condições dignas de trabalho é legítimo; dispensar o trabalho não é. Nenhum cidadão, pelo facto de pertencer a uma comunidade solidária e fraterna, tendo condições de saúde e possibilidades para trabalhar, deve sentir-se no direito de não trabalhar e viver à custa dos outros.

Conta-se que o Papa João XXIII, quando um jornalista lhe perguntou quantas pessoas trabalhavam no Vaticano, terá respondido, com o seu habitual sentido de humor: «Cerca de metade». A questão merece ser colocada ao país inteiro, e não apenas aos jovens que protestam: quantos de nós estamos, de facto, a trabalhar para o futuro que reclamamos? É essa a pergunta que os vendedores de ilusões nunca fazem.