Fechado o capítulo das eleições autárquicas, abre-se agora o caminho para o debate da eleição de um novo Presidente da República, sendo muito importante que esse debate seja elevado e ultrapasse a fase dos interesses partidários e da mera personalidade dos candidatos, afim de evitar a habitual chicana política que menoriza a importância das escolhas a fazer pelos portugueses. Razão por que considero essencial que os diferentes candidatos esclareçam o seu posicionamento em relação a algumas das opções que o País enfrenta na actualidade. Sabemos que o Presidente da República não governa, mas é essencial que os portugueses conheçam de forma organizada o pensamento de cada candidato, a fim de se poderem identificar, ou não, com algum, de entre todos. Ou seja, é importante que os candidatos ultrapassem a fase das grandes generalidades em uso nas campanhas eleitorais, para descerem ao concreto das escolhas que os portugueses enfrentam, com o natural efeito pedagógico que o debate eleitoral pode comportar. Vejamos alguns exemplos possíveis:

Política — Saber se os candidatos privilegiam as actuais leis eleitorais e a continuação da escolha dos candidatos a ser decidida pelas direcções partidárias, ou se preferem a reforma das leis e a escolha dos deputados a ser feita directamente pelos cidadãos eleitores através de uma das várias opções possíveis existentes na União Europeia. 

Educação –– Será importante compreender se os candidatos privilegiam o investimento no ensino superior ou nas creches e no pré-escolar. Trata-se de uma opção política essencial, que comporta saber se cada candidato está disponível para uma mudança no modelo educativo, o que implica optar pelas grandes transformações em direcção ao futuro, como a educação dos comportamentos e das competências, ou optam pela conservação de uma política mais tradicional como a existente hoje. Igualmente, se preconizam a exigência educativa e a existência de exames, ou se preferem menos exigência e um menor número de exames.

Economia — Não menos importante é conhecer o que cada candidato privilegia, se o investimento produtivo ou a distribuição, se o mercado interno ou as exportações, se o aumento dos impostos ou a sua contenção, se a necessidade de atrair o investimento de grandes empresas, ou se privilegia o apoio às pequenas e médias.

Energia — O que é privilegiado por cada candidato: se as energias renováveis, sem outros critérios como a contenção do preço para as empresas e para os consumidores, ou seja, a continuação das políticas seguidas pelo PS e pelo PSD, ou se defendem um menor apoio público aos investidores e a redução, ou eliminação, dos actuais privilégios das empresas do sector, a favor de um maior equilíbrio entre ambiente e economia.

Ferrovia — Quais os que concordam com a opção governamental da bitola ibérica nas novas linhas de alta velocidade, como as linhas do Porto a Lisboa e de Lisboa a Madrid, sem o apoio financeiro da União Europeia, ou privilegiam a opção de Bruxelas pela interoperabilidade da bitola, do sistema eléctrico e de segurança das normas europeias, com a vantagem do financiamento de 60%/80% ser europeu e a fundo perdido. Além, naturalmente, com a possibilidade de os comboios portugueses poderem servir todo os mercados das exportações portuguesas na Europa.

Imigração –– Defendem os candidatos uma política de atracção da imigração por razões essencialmente humanitárias e para suprir as necessidades de mão de obra, principalmente na construção, na agricultura e no turismo, ou privilegiam uma aceitação mais contida de imigrantes em geral e a preferência de imigrantes com maiores competências profissionais, ou oriundos de países predeterminados.

Forças Armadas — Considerarão os candidatos a opção da existência de umas Forças Armadas de um novo modelo de especialização em tarefas de apoio a acidentes naturais ou humanos, como vulcões, tremores de terra, fogos, criminalidade e acidentes na zona marítima a cargo de Portugal, como o transporte aéreos de doentes, etc. e mantendo o modelo da disciplina militar em antecipação de uma especialização no contexto de umas futuras Forças Armadas Europeias, ou privilegiam a continuidade do modelo existente de Forças Armadas  essencialmente militares do modelo tradicional.

Privatizações e Nacionalizações — Qual a preferência dos candidatos, se a criação de uma regra constitucional definidora do que deve ser público e do que deve ser privado, depois de um debate sobre o tema, ou privilegiam o modelo actual em que a decisão cabe a cada governo.

Saúde — Que candidatos privilegiam o exclusivo do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e os que preferem uma solução mista através da existência de sectores privados complementares, ou de parcerias público/privadas.

Uma avaliação dos diferentes candidatos com base nestas diferentes escolhas, permitirá que cada eleitor vote de acordo com o perfil conhecido de cada candidato, na base das convicções de cada um, ultrapassando o habitual desconhecimento das escolhas e evitando surpresas posteriores. Pelo caminho, o método responsabiliza os cidadãos no momento do voto e reduz a influência das fronteiras partidárias, ou de quaisquer preconceitos em relação a qualquer um dos candidatos.

Recordo, para finalizar, que havendo certamente debates entre todos os candidatos, esses debates tratam geralmente daquilo em que cada candidato procura corresponder ao que pensa sejam as preferências dos eleitores, o que é natural. Todavia, dada a variedade das escolhas feitas na intervenção de cada candidato, o que implica sempre as mais variadas divagações, o resultado é os eleitores acabarem por não conhecer o que cada candidato defende em concreto. Igualmente, as perguntas dos jornalistas, sem a existência de um modelo organizado de questões, acabam por valorizar as suas próprias preocupações e de forma não suficientemente exaustiva.

As notícias que nos chegam hoje sobre a possibilidade de alguns eleitores habituais de um determino sector político aparentemente se decidirem a votar num candidato de outro sector político mostra a verdadeira natureza da eleição presidencial, baseada em pessoas portadoras de um determinado currículo e passado. Se além disso tivermos a oportunidade de conhecer as suas preferências, trata-se de um grande avanço democrático.