Há décadas que convivemos com a ideia feita de que os sindicatos docentes são os defensores naturais dos professores. Mas a realidade é outra. Os sindicatos já não negoceiam nada de substantivo, não decidem carreiras, não melhoram a vida nas escolas, não resolvem problemas — limitam-se a encenar conflitos, gerar ruído e preservar a sua própria relevância política. São, no fundo, atores de um teatro repetido onde nada muda porque nada pode mudar.
A Educação em Portugal não está bloqueada por falta de recursos, nem por falta de talento, nem sequer por falta de consenso sobre aquilo que está errado. Está bloqueada porque permanece prisioneira de estruturas que vivem da imobilidade. E o poder sindical — esse poder que já não representa negociação real, mas apenas resistência sistemática — é o exemplo mais evidente.
É por isso que defendo, com toda a clareza, a criação de uma Ordem dos Professores. Não como mais um organismo simpático para pendurar ao lado dos que já existem, mas como a entidade que finalmente retira o sistema educativo da órbita sindical e devolve a profissão docente àquilo que deve ser: uma profissão regulada com rigor, exigência e responsabilidade.
Os sindicatos podem continuar a dar conferências de imprensa, a fazer plenários e manifestações. Mas o poder de definir a profissão — a formação, a certificação, a ética, a qualidade, a supervisão — tem de passar para uma Ordem. E aqui não há meias palavras: é mesmo retirar esse poder aos sindicatos, porque nunca lhes devia ter pertencido.
A situação atual é absurda. Médicos, engenheiros, advogados, farmacêuticos, economistas — todos são regulados por entidades independentes, com regras claras e exigência profissional. Só os professores continuam subordinados a uma lógica de pressão e ruído, sem qualquer mecanismo sério de garantia de qualidade. Isto é injusto para os bons professores e devastador para os alunos.
Mas a maior desigualdade do sistema nem está aqui. Está na forma como tratamos professores de escolas públicas e professores do ensino privado e cooperativo como se fossem espécies diferentes. A profissão é a mesma, os desafios são idênticos, o impacto social é igual — mas o reconhecimento, o estatuto e até a progressão continuam segregados.
Uma Ordem dos Professores seria a primeira entidade verdadeiramente transversal, capaz de unificar a profissão, garantir igualdade de requisitos e responsabilidades, e acabar com a ficção de que há docentes de primeira e docentes de segunda.
E então chegamos à ferida mais profunda da Educação portuguesa: o sistema de contratação. É um mecanismo desumano, que destrói estabilidade, ignora mérito e impede qualquer lógica de projeto pedagógico. Professores são deslocados como peças, escolas não podem escolher quem querem, alunos perdem continuidade pedagógica, municípios não têm palavra, e a qualidade fica ao acaso.
É um sistema que se mantém porque convém ao estado central e porque os sindicatos vivem da ficção de que defender a igualdade é ignorar a competência. A existência de uma Ordem — com padrões profissionais claros e independentes — permitiria finalmente construir um modelo de contratação racional, estável e justo, onde escolas e professores escolhem mutuamente, como acontece em países sérios.
E, finalmente, a formação. Portugal encheu-se de mestrados como se os títulos académicos fossem sinónimo de qualidade. Não são. Um mestrado pode ser útil, mas não faz um bom professor. Não ensina a lidar com uma turma difícil, não cria empatia, não desenvolve capacidade de comunicação, não garante rigor pedagógico.
A profissão aprende-se na prática. A profissionalização em serviço tem de começar cedo, muito cedo. Com supervisão verdadeira, com avaliação real, com acompanhamento continuado. E é a Ordem — não as universidades, não o Ministério, certamente não os sindicatos — que deve exigir e monitorizar isso.
Em Coimbra vejo diariamente o preço deste sistema antiquado: escolas públicas e privadas a tentarem cooperar apesar das barreiras artificiais; direções sem autonomia; professores talentosos exaustos; alunos que mudam de docente porque o concurso assim determina. Não falta qualidade humana — falta estrutura.
Criar uma Ordem dos Professores é assumir que o país está finalmente disposto a tratar a Educação com seriedade. É tirar poder a quem não tem responsabilidade e dar responsabilidade a quem deve ter poder. É substituir ruído por rigor, militância por profissionalismo, imobilismo por exigência.
Os sindicatos não vão gostar. Não faz mal.
Portugal tem de decidir se quer satisfazer estruturas que já não negoceiam nada — ou construir um sistema educativo que finalmente funcione.
Se queremos uma revolução na Educação, ela começa aqui.