É curioso — e talvez inquietante — que, em Portugal, o debate estudantil se concentre quase exclusivamente nas propinas.
Ou, pelo menos, que seja este o único tema considerado relevante pelos media, sem que os próprios estudantes pareçam incomodados com isso.
Vejamos o que se tem passado:
em 2016/17, o valor máximo da propina era de 1 063,47 €;
em 2019, a Lei do Orçamento fixou o limite em “duas vezes o IAS” (cerca de 856 €);
em 2020, o valor foi “congelado” em 697 €;
e agora, para o OE 2026, foi anunciado o descongelamento das propinas do 1.º ciclo nas instituições públicas, com o novo valor máximo fixado em 710 €.
O aumento é de 13 €.
Algumas Associações estudantis foram subtis, como se compreende, na contestação, mas outras houve que não, p.e. a Associação Académica da Universidade de Lisboa afirma que esta decisão “leva o país à estagnação”, a AEFCSH-UNL, por seu lado, “não aceita este aumento nem qualquer outro” e promete que “os estudantes darão resposta nas ruas, em luta, unidos”.
Mais surpreendente é a reação do PCP.
Perante um aumento de 13 €, o próprio secretário-geral do partido apelou à mobilização estudantil — e avisou que “já se viram governos caírem por menos”.
Pasme-se.
Ou seja, não é a falta de habitação estudantil,
não é o valor das bolsas,
não é o financiamento das instituições,
nem as infraestruturas degradadas ou as cantinas lotadas que motivam grandes manifestações.
São 13 € de aumento das propinas que fazem “mexer” os estudantes — e que, segundo alguns partidos, podem até fazer cair um governo.
Convém lembrar: o aumento está previsto no Orçamento do Estado e, se este for aprovado, será porque a maioria dos deputados — que representam os portugueses — o aprovou.
Chama-se democracia.
Reagir tão intensamente ao aumento do valor das propinas empobrece a discussão.
Como se o custo de estudar fosse o único problema do ensino superior.
Quase nada se ouve dos estudantes, sobre a qualidade do ensino, a pertinência dos currículos, a relação entre universidades e sociedade ou o futuro profissional dos diplomados.
Silêncio, também, sobre a ciência, a inovação, a internacionalização, a investigação e o papel das universidades na construção de um país mais justo e competitivo.
Discutir propinas é necessário (?)— mas é insuficiente.
Quando o discurso estudantil se reduz a isso, perde força e profundidade.
As universidades não podem ser apenas lugares de reivindicação económica; têm de ser, antes de tudo, espaços de pensamento crítico, de exigência e de visão.
Enquanto continuarem a falar só de propinas, correm o risco de confundir acesso com sucesso — e de deixar o essencial fora da conversa.
O verdadeiro problema não é pagar propinas.
O problema é se alguém fica fora do sistema por falta de meios.
É aí que os estudantes, devem concentrar a sua energia: em garantir apoios eficazes, bolsas adequadas e mecanismos de inclusão social que permitam estudar quem tem mérito, e não apenas quem tem dinheiro.
O que está em causa não é o preço da educação, mas a igualdade de oportunidades.
As propinas são parte do sistema — não o inimigo.