Citius, altius, fortius.

Era este o lema dos jogos olímpicos aquando da sua reformulação para a era moderna, em 1894. Pierre de Coubertin, pedagogo e historiador francês, aproveitou a frase do seu amigo dominicano e apreciador de desporto Henri Didon para definir três grandes dimensões do atletismo, onde o ser humano podia procurar tornar-se mais rápido, mais alto e mais forte. Inspirando-se na antiga Grécia, num desporto que brotava como elemento cultural de dimensão transcendente, Coubertin fundou o Comité Olímpico Internacional. Sustentando-se nestes valores que, mais do que físicos, eram uma forma implícita de associar a atividade física ao desenvolvimento do ser humano, para que ele pudesse aprender uma forma de dar o melhor de si mesmo.

O desporto, lado a lado com a sociedade (porque o desporto é um fenómeno cultural), evoluiu. E muito. Tive a sorte de poder testemunhar um conjunto de acontecimentos que marcaram um passo acelerado de progresso: a ligação das novas tecnologias com o treino de qualquer modalidade, a comunicação entre a psicologia e o rendimento dos atletas, o aparecimento de grandes equipas (cada vez mais competitivas)! São muitas as provas de que o desporto se desenvolveu, mas há ainda um enorme fosso entre a meta traçada e a nossa posição, e talvez fosse importante prestar atenção a alguns acontecimentos recentes.

Em pleno século XXI, é perigoso ir a um estádio ou a um pavilhão, local onde se atiram tochas aos jogadores, onde se agridem dirigentes e onde não somos responsabilizados pelas nossas ações; Em pleno século XXI, educamos os nossos miúdos a “fintar” os árbitros para que eles pensem que é falta um lance onde, na realidade, nada aconteceu; em pleno século XXI podemos encostar a cabeça a um árbitro porque não existem consequências (nem um simples cartão amarelo, por vezes); Em pleno século XXI, o abandono precoce nas mais variadas atividades aumenta de forma exponencial; Em pleno século XXI tudo é lícito para se vencer…

E, ao mesmo tempo que se desenrolam episódios destes, assistimos à idolatria aos grandes atletas por parte dos mais jovens, a atividade física tem, cada vez mais, uma importância extrema pelo estilo de vida saudável que se quer levar e o desporto transformar-se-á num elemento central das sociedades hodiernas. Mas há mais: os exemplos que são dados nem sempre são os melhores, os valores para os quais educamos estão de rumo enviesado e a sociedade tenta progredir com base nestes problemas. É por isso que pergunto: que comunidade, aliada ao desporto, queremos construir?

Clamamos por diversidade e igualdade de oportunidades, reviramos os olhos aos nossos empregos pelo ambiente egocêntrico que os rodeia, iludimo-nos ao pensar que tudo depende apenas de nós e a nossa noção de liberdade é aquela que nos permite fazer o que queremos.

O Papa Francisco, recentemente, num texto publicado no Vaticano, referiu que o desporto é um meio privilegiado, fácil e eficaz para ensinar o que é a vida, numa cultura dominada pelo individualismo. Acrescento que o desporto ensina o que é a verdadeira liberdade, e que esta pressupõe regras, uma enorme responsabilidade e um verdadeiro sentido do outro. O desporto também desmistifica a ideia de que podemos conquistar os nossos objetivos quando estamos centrados apenas em nós mesmos. A sociedade implora por relações, por uma vida comunitária, e o desporto vai ao encontro dessa necessidade!

No desporto, tal como na vida, somos Homens que ambicionam expressar-se de forma a que cada um possa revelar aquilo que tem de grande e de belo, somos Homens que desejam superar-se através de ações e movimentos que apontam para horizontes vastos, somos mais Homens porque subordinamos o próprio ao todo e, assim, tornamo-nos verdadeiramente livres! O meu irmão, numa carta que me escreveu quando fui trabalhar para a Índia, aconselhava-me o seguinte:

“Entra no jogo deles, não tentes apenas impingir o teu, e depois descobres coisas novas em ti. Procura a origem humana de cada diferença, em vez de tentares plantar à força Plátanos em terra de Jácas. E vais ver que ainda assim, te destacas com a integridade que é própria tua.”

No desporto, tal como na vida, preparamos os nossos corações para a humildade, para a coragem, tornamo-nos mais solidários, passamos a conhecer o valor da palavra competitividade e, dia-após-dia, desejamos mostrar o nosso melhor, dando sentido às vitórias e às derrotas, partilhando-as com os outros. O desporto é também um lugar de encontro com a beleza, com a justiça e com a integridade.

No outro dia, a propósito do projeto “100 oportunidades” (apresentado no mês passado no Prós e Contras e do qual, com muito alegria, faço parte) procurei refletir, não só, sobre as mais variadas modalidades, mas também sobre o estado atual do futebol. Sinto que é fundamental acompanharmos o desenvolvimento do meio que o rodeia. O mundo pede complexidade, a minha geração procura a multidisciplinariedade e o futebol não pode ser exceção (há pouco tempo, conheci um surfista licenciado em relações internacionais, que toca contrabaixo e é cantor lírico – o João Kopke). Para que se transforme, como referi, num pilar significativo para formação do ser humano, o desporto e, neste caso, o futebol, tem a obrigação de se abrir ao mundo, de comunicar com a música, com a literatura ou com a gestão. Se simboliza a própria vida, se serve para explicar o comportamento humano, não deve fechar-se em si mesmo, não pode, na minha opinião, continuar a compactuar com a ideia de que “o balneário é uma ciência oculta” e só quem viveu nele o entende. O conhecimento técnico e especializado é fundamental (em todas as áreas!) mas, mesmo esse conhecimento específico, pode brotar de qualquer ângulo, desde que procure colocar a pessoa no centro.

Nada impede que sejamos seres múltiplos, desde que o façamos com brio, seriedade e humildade. Se eu, por qualquer razão, desejar ser licenciado em filosofia (e o fizer bem), se aprender a tocar um instrumento (e o fizer com afinco), se eu gostar de ler e de escrever (vivendo seriamente aquilo que leio e escrevo), isso só pode significar que me tornarei mais completo e, por isso, serei melhor treinador, atleta, político, advogado, pintor ou educador. E nunca o contrário.

Tenho a sensação de que estamos a atingir o limite. É necessário tomarmos medidas, claras e objetivas, para que o desporto em geral, e o futebol em particular, não se transforme no cancro da sociedade moderna. Nós, os clubes, a Liga, a Federação, os dirigentes, os treinadores, os jogadores, os árbitros e os comentadores, não nos podemos escudar nas vitórias e fingir que está tudo bem. Porque não está, mesmo que continuem a existir momentos em que seja demonstrada a nossa excelência.

Somos responsáveis por colocar o desporto no seu devido lugar, para que qualquer derrota do clube X não seja elevada a assunto de interesse nacional nos telejornais.

Somos responsáveis por construir uma verdadeira cultura desportiva, e não aquela que inventa comunicados a criticar a arbitragem semana após semana. Somos responsáveis por contribuir para a formação de muitas pessoas que olham para nós como exemplos a seguir.

Temos a responsabilidade enorme de demonstrar que o futebol é um jogo, e que é para jogar que cá estamos. Nem mais, nem menos do que isso.