Imagine o seguinte cenário: encomenda, na internet, uma cabeça de chuveiro  nova, já que a sua avariou. Segundo o website em que realizou a encomenda, o  tempo estimado até à cabeça de chuveiro chegar a sua casa é de cinco dias.  Cinco dias passam, e nada. Liga, então, para a transportadora, que não atende a  sua chamada por três vezes, e à quarta diz que precisará de mais dois dias.

Na data em que a encomenda deveria chegar, reserva o dia inteiro a ficar em casa  à espera, uma vez que não há alternativa. A caixa chega, já de noite, e, afinal, era a  cabeça de chuveiro errada. Após mais cinco chamadas não atendidas para a  transportadora, eles informam-lhe que o paradeiro da caixa correta é uma  incógnita, e terá de esperar outra semana.

Quando o item certo chega, duas semanas depois do seu último duche, a  transportadora envia-lhe um inquérito de satisfação já preenchido: cinco estrelas.  Segundo eles, tudo correu bem, e não lhe dão outra opção.

Parece absurdo, e é. No entanto, é isto que está a acontecer com milhares de  estudantes que realizaram os Exames Nacionais.

Ao longo dos meses de verão, os alunos de 9º, 11º e 12º anos têm vivido  momentos de grande angústia. Os dois últimos, particularmente, uma vez que  veem o seu futuro, como a sua nota, em “suspenso”. Não bastando todos os  problemas neste processo, os estudantes e as suas famílias são ainda acusados  de imprudência por Fernando Alexandre, um ministro que, até agora, tinha  conseguido manter-se razoavelmente protegido da opinião pública. Mas quem foi  imprudente não foram as famílias, foi o Ministério da Educação, e, por extensão, o  Sr. Ministro da Educação.

O Governo apontou para a falha humana como causa destes problemas: ou as  escolas agrafaram os códigos QR, ou os professores demonstraram “resistência” à reforma… Este não é o caso. Os vários problemas neste processo, sim, foram  causados pela má preparação logística e tecnológica das entidades responsáveis,  que optaram por globalizar um método que revelou falhas quando aplicado a  apenas um exame, sem corrigir as mesmas. É a fórmula para o desastre.

Realmente, todo este problema poderia ter sido evitado, ou pelo menos  seriamente mitigado, se o ministério tivesse mostrado acrescida consideração à  opinião dos jovens a quem estas mudanças foram impostas. Os estudantes, que  nenhuma palavra tiveram sobre o assunto, são de longe os mais impactados pelas suas falhas. Tivessem sido consultados, e ter-se-iam criado linhas invioláveis  daquilo que não poderia ter falhado, por exemplo, não serem publicadas  classificações em “suspenso”, dada a desigualdade que se cria entre quem tem  nota e quem não tem.

Agora, num momento em que é preciso criar medidas atingíveis para salvaguardar  o acesso ao Ensino Superior de tantos milhares de indivíduos, espera-se, quer do  Ministério da Educação (e seu ministro), quer do Governo, quer dos partidos da  oposição, quer do Presidente da República, que não se cometam os mesmos  erros, que não se seja imprudente novamente.

Reconhecendo o esforço de políticos e comentadores de empatizar com a  situação destes jovens, eles dificilmente alguma vez poderão compreender a  dimensão do que vivemos: afinal, o seu acesso ao Ensino Superior nunca foi posto  em causa pelo próprio governo. Não podem, portanto, ser capazes de criar  mecanismos tão eficazes quanto seriam se, como apelo a que façam, ouvissem os afetados.

Estamos, afinal, a falar de dezenas de milhares de pessoas, a grande maioria das quais não pode votar ou assinar petições, duas das principais formas de  participação política. Se, por terem dezoito anos, todos os cidadãos são obrigados a  vivenciar a diferença entre viver numa democracia e fazer parte dela, devemos,  pelo menos, assegurar que a primeira, agora, não põe em causa a segunda, no  futuro.