Poucos foram aqueles que, no Portugal conturbado do século XX, anunciaram por escrito a relação estreita que tinham com a vida e com a natureza como Sebastião da Gama. Ele próprio caracteriza-se como um homem simples: “Está provado que não nasci para falar a doutores (…) interessa-me bem mais o amor dos pequenos do a que consideração dos grandes.” (1)
O poeta da Arrábida – epíteto que mereceu por ser filho desta serra – não era apenas um homem simples do campo, com pretensões chãs, mas alguém que, precisamente devido a essa relação que tinha com a serra, aprendeu a ver e a cantar a Beleza da Vida que reconhecia: da vida que via na sua serra, da vida que via nos seus alunos, da vida que via nos seus versos.
Jacinto do Prado Coelho e Ruy Belo apelidaram-no de “Poeta integral” onde se percebe, tal como afirmou o Presidente da República no dia da inauguração da sua Casa-Memória, dedicada a ele e à mulher, Joana Luísa, que, em Sebastião da Gama, “(…) dá-se o caso de o homem (…) e o poeta do mesmo nome serem vasos comunicantes: uma existência poética e uma poética existencial, verdadeiramente gémeas uma da outra.” (2) Nele, a poesia funde-se com a vida, as duas surgem misturadas, são uma e a mesma coisa.
No entanto, o seu maior legado reside no seu Diário (3), obra que deveria ser leitura obrigatória para todos os professores. Na conversa que existe hoje sobre a educação “confunde-se o ensino com a profissão”, como referiu Miguel Tamen na apresentação do Diário na Biblioteca Municipal de Setúbal. “Só se fala de professores. Alguém que faz alguma coisa.” Então e os alunos? Hoje em dia, quando ouvimos falar de educação o que ouvimos é o discorrer de uma infindável ladainha de condições: ordenados, horas, instalações, programas, critérios, planificações, habilitações… E o aluno?
O próprio Sebastião da Gama refere no seu diário que: “Isto e outras coisas (…) são as características dos professores para quem ensinar é um «frete» e o aluno é um inimigo. «Cuidado com o aluno!» (4) – preceituam. Eu também preceituo: «Cuidado com o aluno!»
O que pretendia Sebastião da Gama dos seus alunos? Certamente, não que fossem ignorantes, o que seria contra a finalidade da missão do professor. Para isso, é preciso saber o que é a ignorância e o que é o conhecimento. Pelas palavras do próprio, sabemos qual era a sua intenção: “O que interessa mais que tudo é ensinar a ler. Ler sem que passe despercebido o mais importante.” (5)
Gostaria de mencionar dois textos em que podemos perceber o que é que a ignorância não é, segundo Sebastião da Gama, e também o que se ganha quando se lê “com olhos de ler”.
O primeiro é, como não poderia deixar de ser, um poema que integrou o livro Cabo da Boa Esperança, datado de 12 de dezembro de 1946, e que mais tarde foi musicado por Amália Rodrigues, com o título “Nasci p’ra ser ignorante”.
Conheço mais de mil flores.
Elas conhecem-me a mim.
Só não sei como em latim
As crismaram os doutores.
No entanto sou promovido,
Mal haja lugar aberto,
A mestre: julgam-me esperto,
inteligente e sabido.
O pior é se um director
Espreita p’la fechadura:
lá se vai a licenciatura
se ouve as lições do doutor.
Lá se vai o ordenado
De tuta e meia por mês.
Lá fico eu de uma vez
Um Poeta desempregado.
Se me não lograr o fado,
Porém, com tais directores,
e de rios, aves e flores
somente for vigiado,
enquanto as aulas correrem
não sentirei calafrios,
que flores, aves e rios
ignorante é que me querem. (6)
Ignorante, pois, para Sebastião da Gama, não é saber poucas coisas, mas saber as coisas erradas e dar-lhes espaço. No segundo texto que gostaria de partilhar, que foi o último publicado pelo poeta, poucas semanas antes de morrer, publicado quando vivia em Estremoz com o título “Encarcerar a Asa”. Nele, conta a história de uma velhinha que reconhece que o pintassilgo que está na gaiola na rua pode ter frio e que é melhor pô-lo em casa: “Não sabes duas letras, provavelmente. E ainda se persiste no erro de que a grande desgraça é não saber ler. Qual coisa! A grande desgraça é não saber que os pássaros têm frio.” (7)
A grande desgraça é saber as coisas erradas. E a responsabilidade de ensinar as coisas certas cabe ao professor. Segundo o seu mestre no campo da pedagogia, o italiano do princípio do século XX Giuseppe Lombardo Radice que afirmou nas suas Lições de Didática que “O Professor é por si mesmo um espetáculo de vida moral para todos os alunos.” (8) Portanto, a razão pela qual o professor ensina as coisas erradas é porque não dá importância às coisas certas. Se desse, estas naturalmente tomariam o espaço da sua vida e da sua sala de aula.
Notavelmente, Sebastião da Gama preocupava-se com a natureza. Com a natureza na sua integralidade, não apenas com o ambiente. O ambiente exclui o homem, porque a mera presença do homem é prejudicial à natureza. O homem não pode tocar, pisar, construir, colher. A sua ação é mortal para o meio-ambiente. O ambiente é intolerante ao homem. Não foi isso que defendeu o mestre de Sebastião da Gama no campo da poesia, o franciscano também autóctone da Arrábida, Frei Agostinho da Cruz. À semelhança do próprio São Francisco de Assis, este poeta entende a natureza no seu todo, com o homem que recebe de Deus a vocação de cuidar do jardim da Criação.
Com Sebastião da Gama, este Cantor da Beleza da Vida, aprendemos a focar o olhar no essencial. Lendo assim, a pouco e pouco, vamos vivendo assim. E quão grande não seria o ganho se nas nossas escola esta fosse a nossa prioridade?
2 Discurso de Inauguração da Casa-Memória Joana Luísa e Sebastião da Gama, 10 de abril de 2021;
3 https://www.youtube.com/watch?v=KF8rqFe9rkc&t=408s, 11 de novembro de 2023;
4 Diário, Sebastião da Gama, 1 de abril de 1949;
5 Diário, Sebastião da Gama, 4 de março de 1949;
6 “Nasci para ser ignorante”, Sebastião da Gama
7 “Encarcerar a Asa”, Sebastião da Gama, 25 de janeiro de 1952;
8 Lezioni di Didattica, Giuseppe Lombardo Radice;