O ano de 2024 traz-nos várias datas redondas que são ocasião para celebrar e recordar um passado rico enquanto nação. Não é possível um horizonte de futuro sem haver uma reconciliação com a nossa História, mesmo com as partes mais negras ou esquecidas.

A propósito de datas redondas, o Liceu Camões divulgou o seu programa de comemoração dos 50 anos do 25 de abril: documentários, histórias, exposições, palestras e mesas redondas, tudo com um Camões coroado com um cravo – maior do que o próprio poeta – sinal de um anacronismo de quem não estuda a sua própria História. Desconheço se, no meio de tantas iniciativas comemorativas – os próximos meses afiguram-se cansativos para os alunos e professores do dito liceu – já se pensou numa cerimónia de mudança de nome, uma vez que mudar nomes e géneros está tão em voga nos nossos dias. Sobre os 500 anos do poeta Camões, tudo o que aparece, vem depois e por baixo das comemorações dos 50 anos do 25 abril.

Desenganemo-nos ao pensar que Camões foi o único poeta esquecido. Esquecermo-nos do nosso maior poeta é só lamentável. Depois disto, esquecermo-nos dos outros é expectável. No entanto, a 10 de abril, outro centenário se comemorou: Sebastião da Gama. Este professor de Setúbal, autor de “Pelo sonho é que vamos” que morreu com tuberculose aos 27 anos, deixou um diário riquíssimo que deve ser lido por todos os professores – sobretudo os que andam em greves para que se recordem de qual é a missão importantíssima a que estão chamados e o impacto de renovação de uma sociedade que desiste depressa demais de si mesma. Quantas comissões de governo foram criadas para comemorar a vida e obra deste poeta? Zero.

Diante de tudo isto, seria necessário pedir duas coisas: em primeiro lugar, ao Liceu Camões que pensasse seriamente em mudar de nome para Liceu 25 de abril, uma vez que o atributo do nome do poeta é apenas um pretexto para falar de política como quem se imbui de autoridades arcaicas. Em segundo lugar, que o governo – que tomou posse recentemente – pensasse seriamente em mudar o Dia de Portugal de 10 de junho para 25 de abril, de modo a não manchar a memória dos nossos poetas.

Os portugueses esqueceram-se dos poetas e dos feitos gloriosos que estes cantaram. Os feitos que hoje são conhecidos não são aqueles que são cantados ao som da lira, mas que foram gritados ao megafone e anunciados nos cabeçalhos dos jornais. Devemos usar a política como um pretexto para falar de literatura, para contrariar a tendência de usar a literatura como um pretexto para falar de política.

Em tempos históricos controversos faz-nos falta o olhar do poeta: um olhar que descobre e que se espanta, não um olhar que espia e denuncia. Como afirmou Camões com a sua pena e a sua espada: que seja um aviso aos portugueses esquecidos “Para porem as coisas em memória, que merecerem ter eterna glória” (Os Lusíadas, Canto VII, 82).

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