A segurança do doente é fundamental para a prestação de cuidados de saúde em todos os contextos, mas simultaneamente um dos maiores desafios globais da saúde. A Organização Mundial da Saúde alerta para a necessidade de prevenir erros, melhorar a comunicação e antecipar riscos (OMS, 2021). No entanto, crises recentes mostram que este compromisso continua frágil.

Fentanil: a epidemia que devastou os EUA

Nos Estados Unidos, o fentanil tornou-se símbolo de uma tragédia evitável. Este é um opióide sintético, criado pelas empresas farmacêuticas para uso hospitalar, principalmente como um analgésico potente, utilizado em cirurgias ou para aliviar dores moderadas a graves. Porém, também pode causar euforia, sedação e dependência, quando em uso excessivo e prolongado (O’Malley, 2025).

Depois existe o mesmo medicamento fabricado clandestinamente e vendido no mercado ilícito, em forma de pó ou comprimidos falsificados. Este pode ser inalado, fumado, injetado ou ingerido, sendo muitas vezes misturado com drogas como heroína, cocaína e metanfetamina. Estes comprimidos podem imitar medicamentos o alprazolam (Xanax), mas diferem do fentanil farmacêutico, que não é comercializado em comprimidos (CDC, 2025).

A maioria dos danos e sobredosagens relacionados com o fentanil está ligada ao seu fabrico de forma ilegal. Um opioide fabricado ilegalmente, a sua pureza e composição variam significativamente, complicando tanto a sua identificação como o seu tratamento de emergência (CDC, 2025).

Este tipo de opióide e os seus análogos contribuíram para um aumento drástico das mortes por overdose de drogas nos EUA, pois o seu mercado ilegal, abastecido por redes internacionais de tráfico, transformaram-no numa ameaça pública.

Em 2024, as autoridades norte-americanas registaram 48.422 mortes por overdose relacionadas com este opióide ilegal — uma descida em relação às 76 mil de 2023. Apesar da redução, a droga continua a matar quase 300 pessoas por dia e é já a principal causa de morte entre adultos dos 18 aos 44 anos.

O uso deste opióide nos EUA nos últimos anos, tornando-se um problema político e de saúde pública, ultrapassando a prevenção de erros clínicos imediatos e exige uma reflexão profunda sobre políticas de saúde e soluções terapêuticas.

Europa em alerta

No outro lado do Atlântico, a situação é menos dramática, mas a preocupação cresce. O Relatório Europeu sobre Drogas 2025, da Agência da União Europeia sobre Drogas (EUDA), aponta para a chegada de opioides sintéticos altamente potentes, como os nitazenos, já associados a surtos de intoxicação na Irlanda e em França, devido ao seu risco de morte, mesmo em pequenas doses pela sua enorme potência.

Em 2023 foram os únicos novos opioides sinalizados pelo Sistema de Alerta Rápido da União europeia, com triplicação das apreensões e presença crescente em drogas adulteradas e medicamentos falsificados sobretudo como heroína, benzodiazepinas ou oxicodona. Casos graves e fatais já foram registados em vários países europeus, como a Alemanha, França, Suécia, Noruega, Estónia e Letónia.  Porém o impacto pode -se encontrar subestimado devido à sua elevada potência e difícil deteção em análises post mortem.

Embora a Europa ainda não enfrente uma crise de opioides da mesma magnitude que a dos EUA, a crescente diversidade de substâncias psicoativas no mercado representa um risco em expansão. O Relatório Mundial sobre Drogas 2025 (ONU) destaca que, em 2021, o consumo de drogas causou mais de 500 mil mortes e 28 milhões de anos de vida saudável perdidos. Em 2023, os opioides, com 61 milhões de utilizadores, já eram a segunda droga mais consumida no mundo, depois da canábis. Apesar da ameaça dos novos sintéticos, as overdoses continuam a ter como principal causa os opiáceos tradicionais. Atualmente, 15 países da UE dispõem de programas de naloxona (injeção ou spray nasal), e as diretrizes de 2024 reforçam a necessidade de formação em primeiros socorros (EUDA, 2025).

Urgências hospitalares em Portugal

O aumento dos opioides sintéticos na Europa, com seu elevado potencial de intoxicação e dificuldade de deteção, evidencia como a gestão de riscos externos pode refletir na segurança do doente dentro dos hospitais. O crescimento dos opioides sintéticos na Europa, com alto potencial de intoxicação e risco de morte mesmo em pequenas doses, evidencia como a gestão de riscos externos podem se refletir na segurança do doente.

Em Portugal, a crise relativamente à segurança do doente assume outro rosto: o das urgências hospitalares. Serviços fechados, corredores sobrelotados, pessoas doentes em macas à espera, equipas exaustas e sem recursos humanos suficientes, são sinais de um sistema em tensão permanente. Atrasos em casos críticos, como enfartes ou AVC, transformam a sobrecarga em risco direto para a vida das pessoas doentes.

A escassez de profissionais de saúde, aliada à complexidade crescente dos cuidados, a capacitação dos profissionais para dar resposta aos cuidados de saúde, pode comprometer a resposta a emergências, aumentando a vulnerabilidade a erros e limitação na implementação eficaz de medidas preventivas, mostrando que tanto no contexto comunitário quanto no hospitalar, a prevenção e a preparação são essenciais para salvar vidas.

Mais do que um problema de gestão, trata-se de uma ameaça à segurança clínica e à confiança da população no Serviço Nacional de Saúde.

A mesma lição em contextos distintos

Apesar das diferenças entre os EUA, a Europa e Portugal, a mensagem é comum: quando a segurança do doente não está no centro das decisões políticas e clínicas, o resultado é sofrimento e perda de vidas.

Seja no combate ao uso indevido de opioides, na reforma estrutural das urgências ou na proteção das populações mais frágeis, a mensagem é inequívoca: não há sistemas de saúde fortes sem pessoas em segurança. Colocar a segurança no centro é mais do que um princípio ético — é a base para restaurar a confiança, garantir um futuro mais saudável e sustentável.