A ameaça da Candidozyma auris, já não é um problema distante. Trata-se de um fungo multirresistente com uma capacidade invulgar de se disseminar em ambiente hospitalar, sobreviver longos períodos em superfícies e equipamentos médicos e causar infeções graves em doentes particularmente vulneráveis. Estas características tornam-no um risco sério para unidades de cuidados intensivos, enfermarias com internamentos prolongados e contextos clínicos onde são utilizados dispositivos invasivos (ECDC, 2025).
Mas porque é que este fungo (Candidozyma auris) é tão ameaçador?
O alerta do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças é claro: entre 2013 e 2023 foram registados mais de quatro mil casos na União Europeia, com um aumento acentuado no último ano. A resistência a vários antifúngicos e a persistência ambiental explicam a sua crescente prevalência e a gravidade das infeções associadas (ECDC, 2025).
Em Portugal, os primeiros casos (oito) foram confirmados em 2023 num hospital do Norte, com evidência de mutações genéticas que aumentam a tolerância do fungo aos tratamentos disponíveis. Este dado reforça a urgência de uma resposta coordenada, baseada na deteção precoce, em protocolos rigorosos de controlo de infeção e na colaboração entre instituições de saúde e centros de investigação. Ignorar esta ameaça é comprometer a segurança dos cuidados prestados. propagação (Miranda et al,2025).
Porque é que a resposta à Candidozyma auris começa, inevitavelmente, na Enfermagem?
A transmissão da Candidozyma auris ocorre sobretudo por contacto direto entre doentes e profissionais de saúde, mas também de forma indireta, através de superfícies e equipamentos médicos contaminados, que funcionam como reservatórios persistentes do fungo. Esta realidade torna o ambiente hospitalar particularmente vulnerável à sua disseminação.
Perante esta ameaça, a resposta começa onde os cuidados são prestados.
Nos serviços hospitalares, os enfermeiros estão na linha da frente, assegurando a vigilância clínica contínua, a observação atenta dos doentes e a identificação precoce de sinais de infeção, muitas vezes antes da confirmação laboratorial. O contributo da Enfermagem estende-se ainda à vigilância epidemiológica, com a monitorização das infeções associadas aos cuidados de saúde, a deteção precoce de padrões anómalos e a colaboração ativa na notificação de surtos. Este trabalho, frequentemente invisível, é essencial para conter a propagação de microrganismos multirresistentes e proteger a segurança dos doentes.
Compete também à Enfermagem aplicar e supervisionar as medidas de controlo da contaminação ambiental, desde o cumprimento rigoroso das precauções básicas — como a higiene das mãos e o uso adequado de equipamentos de proteção individual — até à implementação do isolamento de doentes. A supervisão da limpeza e desinfeção eficaz de superfícies e equipamentos é um pilar central no controlo da Candidozyma auris.
A literacia em saúde constitui outro eixo essencial da intervenção dos enfermeiros. Ao educar doentes e famílias e ao capacitar equipas multiprofissionais, a Enfermagem reforça a implementação e a adesão aos protocolos, contribuindo para a promoção de uma cultura institucional de segurança e prevenção.
Em última análise, a deteção precoce, o cumprimento consistente das boas práticas e a adaptação rápida a novos protocolos dependem, em grande medida, do conhecimento, da autonomia e do compromisso da Enfermagem. Reconhecer este papel não é apenas um ato de justiça profissional, mas uma condição indispensável para uma resposta eficaz aos desafios da resistência antimicrobiana. A contenção deste microrganismo constrói-se diariamente à cabeceira do doente — e é aí que a Enfermagem faz a diferença.