Num ano político que se prevê longo, já muito se escreveu e falou sobre proto-candidatos, pré-candidatos, putativos candidatos, candidatos assumidos e outros tantos ex-candidatos. No entanto, e porque ainda temos um longo ano pela frente, não é de somenos relembrar alguns pontos importantes sobre as eleições presidenciais e, mais importante, sobre a figura do Presidente República.
Longe vão os tempos da bandeira azul e branca, mas o que é o Presidente da República senão o herdeiro civil dos Reis de Portugal? Não sendo a personificação do Reino por direito de sucessão, o Presidente é a personificação do Estado e face viva da República. Remete-nos isto para como deve ser essa face. Se deve ser um retrato fiel do país ou se deve ser, por outro lado, aspiracional e inspiradora. Alguém que apresente uma visão de um futuro melhor ou alguém que simbolize um regresso a um certo passado.
Se há alguns que acham o país envelhecido, pobre e sem perspectivas de futuro, também há quem ache que este triste fado não é fatal. Portugal pode e deve aspirar a mais. Pode haver uma mensagem positiva, de futuro e de esperança. A Presidência da República deve servir um futuro melhor, deve ser um símbolo aspiracional para os portugueses, especialmente para os mais jovens. O próximo Presidente da República – e é revelador do estado das coisas que a figura seja sempre masculina, como se fosse um clube onde “menina não entra” – deve ser uma pessoa que tenha algo de positivo a transmitir. Talvez seja a vez de dar oportunidade a uma mulher? Numa altura em que já temos praticamente um terço da população jovem emigrada e inquéritos recentes mostram que uma larga maioria dos actuais universitários lhes pretendem seguir o caminho, seria importante mostrar um sinal diferente. A figura do Presidente da República pode e deve ser um agente de mudança, mostrando que se importa com o futuro do país e dos jovens.
Se é verdade que os presidentes têm sido sempre homens de uma certa idade, a Constituição só obriga os candidatos a terem mais de 35 anos. Podemos por isso desejar ver uma cara mais jovem a representar a nação. Precisamos de alguém que nos inspire, uma voz ambiciosa que não defenda somente as mesmas ideias cansadas e esgotadas que afastam cada vez mais as pessoas da política. Não precisamos de discursos gastos, de regressos ao passado ou de suspiros por quem acha que a democracia está falida e que só um “homem forte” nos pode salvar. Portugal tem de continuar a ser uma democracia liberal, com o máximo respeito pelo sistema parlamentar e com um presidente que seja incansável a defender esses valores. Não podemos correr o risco de colocar tudo em causa e nos entregarmos ao apelo de autoridade de uma farda ou de alguém que usa o medo como arma política. Não podemos entregar o mais alto posto da nação a figuras que desdenham da democracia parlamentar, da política e do sistema partidário. Não podemos procurar salvadores messiânicos num dia de nevoeiro. Mas também devemos evitar cair no erro de deixar o lugar para quem não tenha nada de novo para dizer.
Para o longo ano que temos pela frente deixo este desafio aos portugueses: Lutemos por um país melhor, que não seja subjugado pelo medo, e continuemos a defender os valores maiores deste meio século de democracia parlamentar.