A entrada da SpaceX em bolsa, avaliada em 1,77 biliões de dólares, não é apenas o maior IPO da história — é um mapa de como o mercado financeiro está a escrever uma nova lógica de avaliação, onde a narrativa de um visionário, o nome de uma tecnologia e a promessa de um futuro distante pesam mais do que o balanço do último trimestre. Elon Musk, agora proclamado o primeiro trilionário da história, segundo a Forbes e a CNBC, tornou-se o rosto de uma febre que transborda da SpaceX e invade Wall Street com as empresas de IA: Anthropic, OpenAI, Cerebras, Cognition, DeepSeek, um elenco de gigantes que caminham para IPOs ou que já estão a ser negociadas com valuations que, para muitos, não têm paralelo na indústria conservadora.

A questão que se impõe, e que o mercado ainda não responderá com clareza, é esta: como é possível que uma empresa que teve perdas de quase 5 mil milhões de dólares em 2025, apesar de receitas acima de 18,5 mil milhões, seja avaliada em mais de 1,7 biliões de dólares? Como é que uma companhia que nunca teve um ano de lucro consistente, com testes do Starship que explodiram em órbita, booster que falhou em teste no Texas, voos do Falcon 9 interrompidos por problemas técnicos e uma sequência de projetos que nem sempre chegaram ao céu, seja tratada como um colostro quase incontestável ?

A resposta não está na contabilidade, mas na psicologia dos mercados. Estamos numa fase em que a bolsa vende o futuro e esquece o presente. A valorização da SpaceX não segue um racional da indústria conservadora, que exige lucros, previsibilidade e rácios clássicos como preço/lucro. Antes, segue a lógica da bolha de IA, em que a avaliação de uma empresa é cada vez mais subjetiva, baseada em promessas, em narrativa, em potencial de crescimento hipotético e na ideia de que quem domina a inteligência artificial dominará o próximo século.

A febre com a IA é clara: a Anthropic, por exemplo, foi apontada em junho com um IPO planeado a 965 mil milhões de dólares, com 47 mil milhões de dólares em receita anual; a OpenAI está a ser negociada entre 730 e 850 mil milhões de dólares; e empresas como Cerebras e Cognition já estão a ser avaliadas em 23 mil milhões e 26 mil milhões de dólares, respectivamente. O problema é que estas valorações não têm, na maioria dos casos, um fundamento de lucro. A avaliação de uma empresa de IA é hoje uma questão de quem consegue vender melhor o futuro, e não de quem tem os melhores números.

E isso tem um efeito direto na bolsa. A valorização recente dos mercados americanos, com o S&P 500 e o Nasdaq a baterem máximos, não é apenas uma questão de economia real, mas de expectativa de crescimento tecnológico. A bolsa está a ser alimentada por uma narrativa de que a IA vai mudar tudo, e que as empresas que estão a liderar essa mudança valem, por isso, mais do que o seu presente. Mas quando o presente é de perdas, e quando o futuro é uma promessa, a avaliação torna-se um exercício de fé, e não de contabilidade.

O que está a acontecer é um paralelismo com a bolha das telecomunicações e com a bolha das dot-com: empresas que, na altura, foram avaliadas com base em promessas de crescimento, e não em resultados. Agora, a promessa é a IA, e a empresa que lidera é a SpaceX, com o seu fundador, Elon Musk, como o grande símbolo. Mas a diferença é que, hoje, a bolha é mais global, mais financeira, e mais subjetiva.

A bolsa, então, deixa de ser um mercado de preços e torna-se um mercado de expectativas. E quando as expectativas são demasiado altas, a correção é inevitável. A questão é quando, e quanto. Porque a história financeira ensinou que, quando o mercado se apaixona por uma narrativa, a correção é sempre mais dura do que o entusiasmo inicial.

O que está a acontecer à SpaceX e às empresas de IA não é apenas uma febre de avaliação. É uma bolha de fé, onde o futuro é vendido com a promessa de um domínio tecnológico, e o presente é esquecido. E quando o mercado se apaixona, a correção é sempre mais dura do que o entusiasmo inicial. A bolsa, então, deixa de ser um mercado de preços e torna-se um mercado de expectativas. E quando as expectativas são demasiado altas, a correção é inevitável.

A questão final é esta: quantos anos de sucesso hipotético é preciso para que uma empresa de perdas bilionárias se torne um valor de 1,7 biliões de dólares? A resposta, hoje, é uma. A da fé. E a fé, como se sabe, muda depressa.