Adianto já, antes que suscite alguma dúvida, que não é o meu objetivo falar do tempo médio de vida dos computadores dos hospitais nem das principais avarias (doenças) dos dispositivos de diagnóstico ou tratamento. Pelo contrário, quero abordar a componente digital emergente nos serviços de saúde, com foco nos registos eletrónicos. Ponto, parágrafo!
A cada hora, no mundo, são definidas centenas de novas estratégias e investimentos tecnológicos nos sistemas de saúde (Brewer et al, 2020). É notável um crescimento da participação da tecnologia nos sistemas de saúde e, como tal, podemos enumerar os sistemas de registo, monitorização, alarme, os dispositivos avançados de diagnóstico e terapêutica, os sistemas de informação nas diferentes vertentes (clínica, financeira, referenciação, e tantas outras), telessaúde, … (Sharma et al, 2020).
“Si, si, dó, ré, ré, dó, si, lá, sol, sol…” É o início do Hino da Alegria de L. W. Beethoven. Todos conhecemos, mas desta forma tosca de escrever (ou registar) talvez não. Podemos antecipar com unanimidade que é desadequada a escrita e o armazenamento dos dados nesta forma. O suporte de armazenamento seria impensável se todas as obras musicais fossem escritas neste modelo, o acesso seria absurdamente dificultado, uma vez que a dimensão de armazenamento é exagerada, a interpretação demorada e qualquer processamento seria praticamente impossibilitado.
A escrita musical é realmente uma conceção única que condensa a noção de propagação sonora e o conjunto de frequências que devidamente sequenciados formam uma harmonia, o rigor do tempo como métrica de tempo e demais apontamentos expressivos determinantes à interpretação. Desta forma, os componentes necessários à escrita de uma obra musical coabitam numa linguagem própria, escrita e armazenada, tendo em vista todo o ciclo para o qual uma obra musical é criada – conceção artística, armazenamento, divulgação e a sua interpretação/execução.
Em comparação, os sistemas de informação são uma expressão inteligente para armazenar dados de forma a encontrar a orgânica própria do seu ciclo de vida. Por outras palavras, encontrar o potencial que realmente têm, na medida em que a existência não se reduz ao armazenamento, mas enquadrados num sistema próprio e dinâmico. Contudo, reduzir exclusivamente os sistemas de informação ao registo clínico seria diminuir toda a potência e abdicar das mais valias que daqui podem surgir. Desta forma seriam absolutos sistemas de armazenamento.
Hoje reconhecemos o promissor horizonte dos sistemas de informação na medida em que criam redes, interligam realidades, relacionam, transportam e transformam dados, encurtam tempos, aproximam pessoas e instituições, revolucionam as conceções de gestão e administração, atualizam os sistemas e noções de cuidados, promovem a sincronização e permitem o acesso em tempo real. Por outras palavras, criam e dão valor à informação.
Um breve parêntesis: recordo as duas das formas alotrópicas do carbono: a grafite e o diamante. Porquê falar disto? Em tudo, a discussão centra-se numa questão de organização estrutural e ligações que é suficiente para nem se poder comparar o valor de tão diferente que é. Faz-me lembrar o valor incalculável guardado nas caves de unidades de saúde ao longo de anos em arquivos físicos, mas tão inacessíveis… quão ingrato e anacrónico seria analisar processo a processo, recolhendo numa base de dados cada registo em papel, alguns deles com hieróglifos… Pois bem, uma questão de organização e estrutura e o valor torna-se incalculável.
É tão ineficiente um compositor escrever “Si, si, dó, ré, ré…” em vez de usar uma partitura e notação própria, como um profissional de saúde fazer um registo em papel em vez de utilizar uma aplicação digital própria.
Penso que o maior resistente à transformação tecnológica do sistema de saúde tem sensibilidade para admitir a vantagem de acesso aos dados, pelo menos. É um facto.
Os sistemas de informação guardam a matéria-prima necessária para promover um sistema de saúde de vanguarda! Estes sistemas, quando devidamente fundados, estruturam o ciclo de vida em potência de cada conjunto de dados, desde o armazenamento, acesso e tratamento dos dados, em informação. Seria inglório reduzir um registo a um relato e não o usar como forma de estudo, monitorização, como anotação de hoje que com outros se define um comportamento, caracteriza-se uma tendência e prevê-se em cenários a realidade do amanhã ou, ainda, a abertura à compreensão do que realmente vivemos, a monitorização em tempo real.
A saúde digital é um conceito introduzido por Seth Frank em 2000 (Guo et al, 2020; Frank, 2000), cujos critérios de aplicação podem ser analisados com base em soluções que melhoram a eficiência do sistema, investimento na monitorização e incentivos à mudança de comportamentos, autonomia, literacia e autogestão, suporte à decisão clínica, modelos preditivos orientadores do diagnóstico, estratégia terapêutica e prestação de cuidados personalizados (NICE, 2019).
A digitalização do sistema de saúde não consiste em digitalizar os documentos físicos, mas a existência de dados “informatizados”, quase como uma nova expressão de vida. É um novo domínio que precisa de ser conquistado, mas está em processo. A potência está no alcance da comunicação, do armazenamento, das condições facultadas, da abordagem, do diálogo entre sistemas de dados e partilha de informação, entre tantos outros. A transformação digital nos serviços de saúde consiste em tornar o doente no centro, objetivo, propósito e razão de ser do sistema.
A adaptação das instituições num tempo de transformação digital inclui necessariamente a rearquitetura das estruturas de gestão, administrativas e das infraestruturas ao nível do método, estratégias e objetivos e a própria conceção das ideias a este respeito. O design adaptativo requer inteligência e perícia, envolvendo os utilizadores e beneficiários numa rede estratégica em diálogo (Solomon e Rudin, 2020).
A saúde digital é a única expressão que permite adequar os cuidados sob conhecimento de evidências, promover um acompanhamento do doente em contexto, recuperar informações, aproximar os serviços de saúde aos centros de investigação e estudos, colocando o doente no centro como beneficiário único de um sistema basilar.
Vivemos a adequação desta transformação, com investimentos necessários para que tudo flua de forma a que os dados não sejam apenas letras, mas dados que aguardam a transformação. Este processo de transformação tem como objetivo a conversão em valor acrescentado de mais e melhor informação que, quando devidamente interpretada, se personifica em decisões e estratégias, possibilidade de antever rumos alternativos, consolidação do conhecimento para prestar um serviço cada vez melhor e mais adequado, permitir a avaliação das opções e a reestruturação de planos, se necessário, em novos horizontes e tudo o que daqui advenha. A velha escola ensinava a recomeçar em setembro, por ciclos programados e rotineiros. Hoje temos ao alcance e à disposição ferramentas que permitem analisar informações em tempo real e adaptadas às circunstâncias. A capacidade de adaptação dos serviços é mais flexível que nunca.
Só um investimento contínuo no desenvolvimento e manutenção dos sistemas de informação aproxima o conhecimento da prestação de cuidados. As estruturas e instituições precisam de se mobilizar para que a tecnologia seja parte cooperante do processo, formando e apelando à sensibilidade de todos os que nela participam. As medidas de financiamento são resistências óbvias com que as entidades lidam durante a adesão ao ecossistema digital, mas o descuido da adesão e a indiferença de certos participantes na necessidade desta viragem da promoção da qualidade dos serviços são, em potência, a corrente da resistência.
O artigo 64.º da nossa Constituição consagra a proteção da saúde como um dever e como um direito. Bem gostava que cada beneficiário também se visse como responsável de um sistema em transformação, na medida que faz bom uso das ferramentas que tem ao dispor, sabendo que a digitalização é a chave de uma porta que torna um sistema com melhor serviço e qualidade. A digitalização da saúde aproxima tanto o doente dos cuidados, como os cuidados do doente e só assim centra o doente no sistema de saúde. Nós fazemos parte deste sistema em transformação, não como exclusivos beneficiários, mas como participantes ativos e responsáveis.
Há dias, estava num jantar e pediram um ice tea de pêssego. Eis que o senhor que servia à mesa pergunta “com caroço ou sem caroço?”. A engraçada pergunta levou-me a pensar nos tantos caroços que ainda andamos a tirar desnecessariamente…
Bibliografia:
Brewer, L. C., Fortuna, K. L., Jones, C., Walker, R., Hayes, S. N., Patten, C. A., & Cooper, L. A. (2020). “Back to the future: achieving health equity through health informatics and digital health”. JMIR mHealth and uHealth, 8(1), e14512.
Diário da República nº 86/1979, Série I de 1976-04-10, Artigo 64º.
Frank, S. R. (2000). “Digital health care—the convergence of health care and the Internet”. The Journal of ambulatory care management, 23(2), 8-17.
Guo, C., Ashrafian, H., Ghafur, S., Fontana, G., Gardner, C., & Prime, M. (2020). “Challenges for the evaluation of digital health solutions—A call for innovative evidence generation approaches“. NPJ Digital Medicine, 3(1), 1-14.
NICE. (2019). Evidence standards framework for digital health technologies.
Solomon, D. H., & Rudin, R. S. (2020). “Digital health technologies: opportunities and challenges in rheumatology“. Nature Reviews Rheumatology, 16(9), 525-535.
Sharma, A., Harrington, R. A., McClellan, M. B., Turakhia, M. P., Eapen, Z. J., Steinhubl, S., … & Peterson, E. D. (2018). “Using digital health technology to better generate evidence and deliver evidence-based care”. Journal of the American College of Cardiology, 71(23), 2680-2690.