Todos conhecemos a tristeza, a ansiedade e o desânimo como partes integrantes da experiência humana. Surgem, atravessam-nos muitas vezes em silêncio, por vezes desancoram-nos, mas inscrevem-se no percurso do viver e podem, por isso, fazer parte do crescimento individual e coletivo ao longo da vida.
A depressão pertence, no entanto, a outro lugar, quando aquilo que deveria ser nómada se instala, quando toma proporções desmedidas, deixa de ser resposta e passa a residir. Quando surge, entramos numa realidade distinta daquela experiência comum de tristeza. Não é “só” estar triste, é um estado permanente no tempo, pouco basculante em que se vive numa película monocromática e numa incapacidade tantas vezes indizível.
Nem todas as pessoas com depressão choram. Quantos continuam a trabalhar, a cuidar dos filhos e a sorrir em público, enquanto por dentro permanece uma dura luta que parece não ter fim. Reconhecer a própria fragilidade não é falhar ou render-se, é criar uma oportunidade para a mudança. Às vezes pergunto-me quantas vezes ouvi em consulta (ainda hoje ouvi) “achava que era forte…que estas coisas nunca me aconteceriam…”.
Nesse pedido de ajuda, sendo natural sentir apreensão e receio, abre-se a possibilidade de percorrer um caminho distinto. A depressão deve ser tratada com rigor e método, ainda que o seu curso possa ser influenciado por fatores externos. É uma doença e, ao mesmo tempo, uma experiência profundamente humana, que frequentemente se associa a alterações na forma como pensamos, sentimos, nos relacionamos e projetamos o futuro, com impacto na energia, na esperança e na capacidade de acreditar que melhores dias virão.
Quem nunca passou por uma depressão dificilmente imagina o peso que pode ter. No SNS, o acesso aos cuidados de saúde mental faz-se habitualmente através do médico de família (mas não só) e continua a ser, para muitas pessoas, uma resposta viável e decisiva. Como psiquiatra no SNS, acompanho pessoas em diferentes contextos de cuidados, da consulta externa ao serviço de urgência, do hospital de dia a programas terapêuticos mais estruturados, em fases distintas da doença e com graus variados de complexidade clínica. Muitas chegam já medicadas, após abordagens iniciais adequadas, mas trazem frequentemente a mesma pergunta subjacente: “há ainda mais alguma coisa a fazer?”.
O percurso no SNS pode ter desafios: tempos de espera, consultas por vezes espaçadas ou ajustamentos necessários ao longo do tratamento, dificuldades que não são exclusivas de um sistema público e fazem parte da complexidade dos cuidados de saúde mental. Apesar disso, a minha experiência clínica mostra que o SNS responde, na maioria das situações, melhor do que muitas pessoas temem quando dão este passo.
A depressão raramente melhora de um dia para o outro, é uma condição de múltiplos determinantes e o tratamento é, na maioria das vezes, um processo que exige tempo, ajustes e acompanhamento contínuo. Nem sempre a primeira abordagem resulta, e isso não é falha do doente nem do médico. Ao longo do percurso no SNS, os cuidados vão sendo adaptados, em diferentes contextos e com estratégias complementares, num processo que exige persistência e atravessa, por vezes, momentos mais desafiantes. Hoje existem opções terapêuticas mais diversificadas e modernas, muitas delas disponíveis no próprio SNS. Avaliam-se respostas, corrigem-se rumos, ajusta-se o plano terapêutico, num processo em que persistir faz parte do tratamento.
No SNS existem diferentes níveis de acompanhamento, que podem ser mobilizados de acordo com a necessidade de cada pessoa. Felizmente, a maioria não precisa de percorrer todos esses níveis. O cuidado ajusta-se ao longo do tempo, pode intensificar-se em momentos críticos e diminuir quando existe maior estabilidade. Integra abordagens distintas que vão desde a psicoterapia e tratamentos farmacológicos convencionais a intervenções físicas e a fármacos mais recentes, de administração mais simples e melhor tolerados, assentes em novos enquadramentos terapêuticos e em alvos de ação diferentes dos tradicionalmente utilizados. Sempre que necessário, considera também outras condições médicas que interferem com a evolução da depressão, através da articulação com diferentes especialidades.
Há algo que tanto a ciência como a experiência clínica confirmam: a maioria das pessoas com depressão melhora. Nem sempre de forma rápida ou linear, nem sempre de forma completa, mas melhora. Volta a dormir melhor, a sentir algum prazer, a projetar o futuro, ainda que com cautela. Muitas das pessoas que hoje vivem com estabilidade passaram, antes, por fases em que isso lhes parecia impossível. Outras entram em remissão e retomam uma vida com continuidade e sentido. É importante dizê-lo sem promessas vazias: a depressão é uma doença séria, pode ser grave e exige acompanhamento.
Entrar no SNS não significa ficar preso a um rótulo, significa iniciar um caminho onde existem profissionais preparados, conhecimento acumulado e, acima de tudo, pessoas que levam o sofrimento a sério. A depressão tenta convencer quem a vive de que nada vai mudar e o processo de tratamento pode, por vezes, parecer confirmar essa ideia. A experiência clínica mostra-me outra coisa: com tempo, acompanhamento e persistência, muita coisa pode, de facto, mudar. Entrar no SNS é, muitas vezes, o primeiro passo que a própria depressão tenta impedir e é precisamente por isso que esse passo importa tanto.
João M. Borges, doutorando em Neurociências, é médico psiquiatra na ULS São João e assistente convidado da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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