Li com atenção e várias vezes a espécie de manifesto que algumas personalidades da direita portuguesa fizeram publicar no jornal Público.

Disclaimer: sou amigo de alguns deles, conheço outros que respeito, há outros ainda com quem não me associaria e alguns que não faço ideia quem são. Como sei o que e como pensam alguns dos que me considero amigo, fruto de muitas conversas e discussões ao longo dos anos, não posso descartar o dito manifesto como simples sinalização de virtude que é, inequivocamente, o que se torna assim que publicado, sabendo eu que não é esse o espírito de muitos dos subscritores. Mas é o que é, quer eles queiram quer não e é normal que a criatura escape ao criador.

Indo ao texto propriamente dito, considero que contém erros de paralaxe e de forma.

Um erro de paralaxe é quando escrevem “o espaço não socialista deixar-se confundir com políticos e políticas que menosprezam as regras democráticas, estigmatizam etnias ou credos, acicatam divisionismos, normalizam a linguagem insultuosa, agitam fantasmas históricos, degradam as instituições”. Meus caros, quem confunde o “espaço não socialista” com todas essas coisas não é ninguém dentro desse espaço. Essa muito conveniente confusão não passa de um conluio entre uma esquerda cada vez mais tribal, que perdeu a noção de “adversário” e vos considera “inimigos”, com uma imprensa cada vez mais domada e infectada por ideologias retrógradas e assassinas. Convém que tenham a noção exacta de quem faz e a quem convém essa confusão. A aceitação dessa confusão é responsabilidade vossa, bem como do possível colapso moral. E é responsabilidade vossa, porque como demonstram aqui, aceitam a narrativa que a esquerda vos impõe e chegam (pun intended) a abraçar muitas das causas mais radicais dessa mesma esquerda. Por aí, alienam uma parte substancial de pessoas comuns que, à falta de conhecimento, têm outra coisa preciosa: bom senso.

Erro de forma (há mais, mas vamos a um). Não se percebe a ternura com que se referem à cedência da esquerda a frentismos anteriormente rejeitados, assim sem mais, por comparação com a violência no ataque à mesma possibilidade à direita. Meus caros, tresanda a virtue signaling por todos os lados. O que soa a quem lê, é uma legitimação e aceitação da vossa parte das opções à esquerda pela aliança com forças totalitárias e com provas dadas desse totalitarismo. Sei que não é essa a ideia, que não passa de um erro de forma, mas é o que fica escrito.

Por fim, uma nota quanto a não ignorarem as razões da exasperação e descontentamento dos apoiantes destes movimentos populistas. Já tenho muitos governos, políticos e deputados às costas e seria profundamente estúpido se ainda não tivesse aprendido que interessa pouco o que dizem, interessa, isso sim, o que fazem. Os problemas que afligem as pessoas são muitos e de muita ordem, o facto de um ou outro de VExas ter já demonstrado bastas vezes que sim, que percebem muitos desses problemas e tendo oportunidade agem em conformidade – daria aqui o exemplo do Adolfo Mesquita Nunes como Secretário de Estado do Turismo –, não impede que não percebam os medos e ansiedades que, legitimamente, parecem não fazer sentido. Mas fazem. Fazem sentido para as pessoas que os sentem e não têm da parte da direita democrática qualquer resposta.

Bem sei, os partidos da direita nacionalista/populista, o que VExas lhe quiserem chamar dão muito jeito à esquerda, mas mesmo que não existissem, essa esquerda criaria da mesma maneira um inimigo, à falta de um Ventura tiveram um Passos Coelho. Com que diferença para o que se vê hoje? Nenhuma.

Acresce que esta direita de que vos queixais não é criação da esquerda. É criação vossa, porque (sabendo que estou a ser injusto com alguns dos signatários) de tanto cosmopolitismo, esquecestes quem vos sustentou sempre. Não foram as elites intelectuais, económicas ou outras que vos sustentaram durante 40 anos. Foi um povo que trabalha, produz, paga impostos, sofre e está cansado, farto até à medula de ser roubado e, to add insult to injury, de ser menosprezado e tratado como uma massa de ignorantes e retrógrados. Não é isso que o povo de direita é. Alguns dos signatários deram provas ao longo do tempo de saberem isto. No entanto, enquanto gente de direita, ainda por cima com ideias bem cimentadas, é pena que não tenham um espelho, um bocado mais de amor próprio e que se deixem enrolar em narrativas progressistas criadas por lunáticos que são, de facto, quem detém o poder hoje nesta, como lhe chamou o Eça, choldra.

Com todo o respeito e amizade