Pensar Portugal com otimismo exige assumir a ambição de um futuro diferente, reconhecendo o insucesso das últimas décadas e a necessidade de mudar de paradigma. A perda de sete lugares no ranking do PIB per capita dos 27 da União Europeia nas duas últimas décadas, com um crescimento da produtividade que foi menos de metade do mais baixo dos países que nos ultrapassaram, ou a perda de competitividade salarial para os jovens com menos de 30 anos, que caiu de 60% da média europeia em 2006 para 53% em 2018, testemunham, mas não esgotam, esse insucesso.
É um malogro surpreendente, porque surge depois de vinte vigorosos anos de crescimento no final do século XX e coincide com um progresso notável na qualificação da nossa juventude. Em 2001, 14,1% dos jovens entre os 25 e os 34 anos tinham o ensino superior concluído. Em 2021, eram 47,5%, para 44,5% na média dos EU27. Este aumento, de quase 35 pontos percentuais, foi o segundo mais elevado dos EU27. Assim, é um verdadeiro paradoxo quão pouco cresceram a economia, a produtividade, os salários ou os empregos qualificados, dado o sucesso que o país teve nas qualificações. A implicação é que a economia tem tido pouco para oferecer aos jovens portugueses qualificados nas últimas décadas, em comparação com os nossos parceiros europeus.
O presente é mais animador. A nova geração, qualificada e global, tem demonstrado vontade de fazer diferente e as histórias de sucesso começam a surgir. É notável, por exemplo, que a internacionalização das empresas com menos de cinco anos tem sido bastante superior às que são mais antigas, e a diferença tem vindo a aumentar.
Mas em muitas variáveis determinantes para a capacidade das empresas de transformar talento em produtividade, como a escala, o investimento, a internacionalização, a profissionalização da gestão ou a inovação, a performance continua demasiados furos abaixo dos nossos parceiros europeus relevantes. Isto é, o presente é melhor que o passado, mas continua insuficiente para recuperar, em tempo útil, a distância para a Europa de que fazemos parte.
Claro que o país é muito mais que a sua economia. Hoje temos um reconhecimento global, quimérico há apenas dez anos. As grandes cidades portuguesas são metrópoles internacionais, com excelentes restaurantes e espaços de lazer e eventos internacionais de referência. Por outro lado, o talento português é reconhecido pelo mundo, e não apenas no futebol. A marca Portugal está hoje mais reconhecida que há muitos séculos.
Mas, sem economia não há salários nem empregos de qualidade. E, portanto, os atributos de marca do Portugal cosmopolita e global ficam apenas uma miragem para os portugueses. Com a falta de prosperidade vem o ressentimento e a falta de esperança e, muito perto disso, está o desespero que leva a soluções populistas. Mais do que a marca, é a economia que tem de alimentar a classe média, para que a democracia sobreviva. Esta é a lição maior das recentes eleições americanas.
Em suma, quando olhamos o futuro, o primeiro voto é que os resultados da economia sejam radicalmente diferentes do passado. E para resultados diferentes, temos de fazer coisas diferentes. Isto exige duas realizações. Por um lado, a ambição para querer essa mudança e a disponibilidade para suportar os custos de curto prazo a favor de resultados no longo prazo. Por outro, a força de crer que o nosso destino está nas decisões que tomemos e na capacidade de executá-las e não em nenhum fatalismo cultural ou geográfico. Deste ponto de vista, o maior desafio que se põe ao país somos nós próprios. A nossa capacidade de ambicionar e de acreditar, de planear e de executar, de colaborar e confiar, e de resistir e insistir são os elementos de sucesso e os desafios a ultrapassar.
Não cabe neste espaço sumariar as dimensões de uma plataforma para transformar a nossa economia e recuperar a esperança. Apresento algumas ideias num livro que publiquei recentemente, intitulado precisamente Ambição. O que se exige é uma transformação que tem de atravessar as empresas e o Estado, que tem de ser levada a cabo a um ritmo acelerado e na qual nos devemos inspirar noutros países que a fizeram com sucesso, como a Irlanda ou Singapura – aprendendo com eles, sem, necessariamente os papaguear.
Entre as principais linhas estratégicas terão de constar maior escala nas empresas, através de consolidação no mercado interno e mais internacionalização, que facilitarão uma gestão mais profissional, investimento e inovação. A atividade de fundos de private equity e a colaboração entre empresas, como no caso do setor do calçado, são alavancas relevantes. Mas é fundamental a vontade dos empresários em ultrapassar as zonas de conforto e quererem chegar mais longe e de se disporem a colaborar e a comprometer algum controlo e protagonismo, em nome da ambição.
Também no Estado há que mudar de paradigma. Ao longo dos anos, o Estado perdeu a sua capacidade para atrair os melhores, apesar do largo volume de talento que ainda se pode encontrar no setor. Para este último, há que criar os mecanismos de responsabilização por resultados e autonomia para que possam decidir, arriscar e implementar, em vez de se dedicarem a processos administrativos desmotivadores, ineficientes e pouco ágeis. Isto implica substituir o atual sistema de controlo burocrático de processos por uma meritocracia baseada nos resultados obtidos.
Por último, mais que reformas estruturais em que se acredita ideologicamente, mas em que não se veem, nem se medem os efeitos, o país precisa de uma estratégia. Essa estratégia terá de ser cocriada por vastos sectores da sociedade, incluindo a sociedade civil e a classe política. Terá de se definir prioridades, ações e objetivos e atribuí-los aos diferentes participantes, públicos e privados. E terá de se desenvolver a um prazo muito mais longo do que o ciclo político, exigindo assim a aceitação por uma parte importante da população e um acordo alargado no espectro político.
São desafios difíceis, pois exigem — não apenas, mas também — a transformação da cultura e da política. Não é impossível, e já o assistimos noutros países, como no leste europeu ou na Irlanda. O que estou certo é que temos o talento para liderar essa transformação numa geração de jovens, nos quais investimos para se tornarem competentes, internacionais, abertos e cheios de ambição, mas que, cada vez mais, escolhem levar o que aprenderam para fora. Nesse sentido, a primeira alavanca para transformar é acreditar nos jovens qualificados que produzimos e dar-lhes a oportunidade para fazer acontecer, acelerando a transição de gerações em Portugal. Assim, o meu primeiro desejo para o futuro é mais poder para jovens que serão líderes amanhã, a começar já hoje.
Daniel Traça é economista. Doutorado pela Universidade de Columbia, foi diretor e professor de Economia da Nova School of Business and Economics (Nova SBE) e professor visitante no INSEAD, em França e Singapura. Trabalhou como consultor para o Banco Mundial e a Comissão Europeia e é atualmente diretor-geral da ESADE Business School, em Barcelona. É membro do Clube dos 52, uma iniciativa no âmbito do décimo aniversário do Observador, na qual desafiamos 52 personalidades da sociedade portuguesa a refletir sobre o futuro de Portugal e o país que podemos ambicionar na próxima década.