Uma investigação revelou que os micróbios da Terra podem crescer em condições extremas semelhantes às que poderiam existir logo abaixo da superfície de Marte, sugerindo novas linhas de investigação na procura de possível vida celular no “Planeta Vermelho”.

O trabalho foi publicado na revista Applied and Environmental Microbiology, uma publicação da Sociedade Americana de Microbiologia, noticiou na quinta-feira a agência Efe.

O estudo, liderado por Adam Robinson, investigador da Universidade da Florida, testou se um microrganismo halófilo conseguiria fazer mais do que apenas sobreviver às várias condições adversas de Marte. Estas condições incluem as que existiriam à superfície e, potencialmente, no subsolo.

O micróbio conseguiu reproduzir-se e utilizar substâncias químicas do seu meio ambiente para manter o seu metabolismo, embora o seu crescimento tenha sido consideravelmente mais lento do que em culturas semelhantes mantidas sob a pressão atmosférica terrestre.

Os micróbios cresceram durante meses em apenas uma fração da atmosfera normal da Terra, numa solução sete vezes mais salgada do que a água do mar e respirando substâncias químicas semelhantes à lixívia.

Os cientistas concentraram-se no Haloferax volcanii, um micróbio conhecido como extremófilo devido à sua capacidade de tolerar condições extremas aqui na Terra.

Escolheram o Haloferax devido à sua conhecida preferência por ambientes com elevada concentração de sal, semelhantes aos que se encontram no subsolo pouco profundo de Marte.

Experiências anteriores tentaram responder a questões semelhantes. Os investigadores cultivaram micróbios terrestres sob condições específicas de stress associadas a Marte, como altas concentrações de sal ou baixa pressão.

Outros estudos verificaram se os organismos sobrevivem após a exposição simultânea a diversas condições extremas, muitas vezes durante apenas algumas horas ou dias.

“Muito menos estudos conseguiram combinar estas condições e demonstrar que os microrganismos podem crescer ativamente”, realçou Robinson.

Para esta experiência, a equipa manteve culturas de Haloferax em condições isentas de oxigénio e ricas em dióxido de carbono durante 160 dias.

Os micróbios receberam nitrato ou perclorato, compostos relevantes para Marte que poderiam ser utilizados em vez de oxigénio durante a respiração.

As culturas que não receberam nenhum destes compostos químicos permaneceram viáveis, mas não apresentaram um crescimento apreciável, o que ajudou os cientistas a distinguir entre sobrevivência e reprodução.

A observação dos processos microbianos nestas condições pode ajudar os cientistas a diferenciar possíveis bioassinaturas de células extintas de processos biológicos de células vivas ou existentes.

Os investigadores também observaram estruturas densas, chamadas biofilmes, nas culturas que cresciam sob baixa pressão.

É possível que estes biofilmes tenham ajudado a reter água na solução salina, uma vez que as culturas perderam pouca água durante a experiência.

O laboratório não reproduziu todas as condições que os organismos encontrariam em Marte. As culturas foram mantidas a 21 graus Celsius, enquanto a maior parte do subsolo marciano é muito mais frio.

Além disso, receberam nutrientes fornecidos pelos investigadores. E a existência de bolsas de água líquida, cuja presença a experiência visava simular, ainda não foi confirmada em Marte.

“O ambiente que estamos a simular nesta experiência não foi observado em Marte, mas acredita-se que exista”, ressalvou Robinson.

Esta distinção é importante. Os resultados não provam que existe vida em Marte hoje. No entanto, sugerem que futuras missões que explorem o subsolo do planeta deveriam considerar a possibilidade de alguns ambientes albergarem vida ativa, em vez de procurar apenas evidências de que a vida existiu há milhares de milhões de anos.